24 outubro 2009

ilent noise

Era quase meia noite; preparava-me para me deitar com o meu livro quando soou o alarme. Dona Teresa precisava de mim e chamava-me via sms. Uma vez, aguardei, duas vezes. Dizia que só eu a podia ajudar, que precisava que eu lhe dispensasse meia hora no silêncio da noite; que tinha problemas de energia.
Muita coisa que passou pela cabeça naqueles minutos que antecederam a minha resposta; estava com insónias e queria que eu a distraísse? Estava com energia a mais e precisava de sair para a rua? Estava às escuras na casa nova? Que energia era aquela? Devia levar lanterna? Pilhas? Velas? Não me sentido totalmente à vontade, anui. Apressei-me a vestir para sair e em breves minutos, tocava a minha campainha. Trajava um enorme casaco abotoado que deixava a descoberto umas longas pernas que terminavam numas havaianas amarelas.
- Amiga, tem de vir comigo a minha casa. Preciso de saber se o barulho que eu oiço é energia ou é da minha cabeça.
Percebi - decididamente, era realmente energia em excesso... Faltava saber a origem.
A casa estava às escuras e tudo dormia. As luzes do tecto falso desataram num zzzzzzzz suave que para ela era um barulho enorme. Entrámos, desviando-nos dos móveis que eu já conhecera na casa onde moro. Levou-me para o quarto e pediu para me deitar, apagando a luz. Deixou-me sozinha para ouvir, como se fosse ela: um silêncio absoluto interrompido por um motor de mota e um leve arrastar de cadeira no andar de cima. Não, o problema era na cabeça dela.
Ficou alíviada, disse. Afinal já não tinha de mudar de casa de novo, como vem fazendo sucessivamente há seis anos. Compreendi finalmente porque me vendera a casa.
Dona Teresa tinha ainda outro problema: uma conta de correio electrónico que caducara e outra cuja palavra-chave não era aceite. Aproveitei o portátil à mão e reactivei-lhe as contas.
Não me custou, como poderá parecer. E acredito que fiz qualquer coisa por ela nessa meia hora que se transformou em hora e meia.

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