ócegas de féAna tinha pressa, corria para o metro. As escadas multiplicavam-se. Arrependeu-se, retrocedeu, cansada. À beira do passeio, acenava para fazer parar um táxi. Um homem gordo e anafado, chamou-a:
-Irmã! Irmã! Vai para o Cais do Sodré? Podia dar-me boleia...
Hesitou mas prudentemente disse-lhe que não passava lá.
Enquanto entrava no carro, pensou melhor. Viu-lhe no virado do casaco um pin, uma cruz, qualquer coisa que achou de cariz religioso. Afinal, era um padre, podia excomungá-la, podia correr-lhe o dia mal... Correu atrás dele.
-Venha, senhor padre, então venha.
O homem desfez-se em amabilidades e tomou o lugar da frente.
Ana, no banco de trás, torcia as mãos, esperando que a viagem corresse rápida. O padre resmungava com os anúncios que expunham uma semi-nua Cláudia Vieira.
-Isto é uma podridão. E aquela mulher é uma devassa. Tenho que rezar por ela. Credo!
-Mas que sabe bem, sabe, senhor padre. Alegram-nos a condução..., dizia o taxista.
-O senhor trabalha muito. Vou rezar por si, que está mesmo a precisar. Se logo sentir um arrepiozinho nas costas, não se preocupe, é sinal de que a minha oração faz efeito.
O taxista era um homem crente, a ver pelo rosário pendurado no retrovisor e o são Cristóvão colado no tablier.
-A irmã hoje fez uma boa acção. E podia dar-me qualquer coisinha para o meu almoço? Também vou rezar por si.
-E como é que eu sei que reza por mim? Até me dava jeito que a vida começasse a correr melhor.
-Olhe, mais logo, quando começar a sentir um formigueiro pelas costas acima, é porque a minha oração está a fazer efeito...
2 comentários:
arrepios nas costas? formigueiros nos pés? Consulte já o grande mestre espiritualista Zé! Todos os problemas têm solução!
Há também o doutor Reco-reco, é tentar.
Enviar um comentário