18 Fevereiro 2012


emórias
Faz quatro anos que enveredei por um caminho aberto na encruzilhada a que chegara. Nada de balanços e muito menos de remorsos - encaixo-me perfeitamente o modelo que escolhi e não voltaria atrás para a encruzilhada de novo uma vez que optei definitivamente pelo caminho certo. Parece até, de um modo geral, que sempre vivi assim. Há porém os domingos de manhã. É quando parece que acabei de sair daquela casa que ajudei a reconstruir, da sala espaçosa, do terraço solarengo e dos almoços no quintal. Olho para o cão que me acompanha há treze anos e que comigo fez tal vereda. Pensará ele o mesmo? Far-lhe-á confusão tamanha reviravolta? Na minha memória está tudo de tal modo intacto que quando penso em certos conceitos ainda me vejo lá mesmo não me querendo ali jamais. 

16 Fevereiro 2012


menino joãozinho
está muito cansado, sonolento, porque "anda a tomar anti-histamínicos". Tem ataques de tosse e saca constantemente do lenço de papel com modos educados. "Vamos lá a ver se é desta vez que eu melhoro".
Chamou-me para lhe ver o desenho, torto à nascença, com poucas hipóteses de emenda.
Apresentei-lhe algumas alternativas mas ele disse que o meu "raciocínio é muito complexo"...

13 Fevereiro 2012

ota-se muito?

A quantidade de trabalho prazeiteiro que faço mede-se pelo pó em cima do estirador.

Para usar uma linguagem bombástica, atuei em diversas frentes no palco de operações. Em quatro dias montou-se e inaugurou-se uma exposição de Desenho e Materiais na Biblioteca da Escola.
Dançou-se num centro comercial com enquadramento meu durante dois dias. Estou exausta.

08 Fevereiro 2012


como vencer a crise

omo vencer a crise

Anda meio mundo deprimido por causa dos efeitos de uma crise mais anunciada do que efectiva. O audi vermelho novo estacionado ali à porta comprova que há excepções.
Insere-se nesta categoria excepcional o já por mim anteriormente enaltecido, senhor Silva.
Enfrentando a crise pelos chifres, recusa entregar-se-lhe; defende os seus princípios com unhas e dentes. Não deixa que o arrastem para o mundo competitivo do trabalho. Querem mas não conseguem levá-lo. Mantém-se firme no seu posto de observador.
Prudente, faz uma vida regrada e confessa que o seu maior gasto é a conta da luz porque nunca soube viver sem o conforto de uma casa aquecida e um cigarro na mão. Acorda tarde, desloca-se de assento, conduz a sua mota pela cidade sempre com um determinado objectivo e nunca em vão. Fuma enquanto saboreia a paisagem, repetidamente, na mesma janela. Apressa-se nas tarefas domésticas.
Abdica de outros prazeres: ao contrário de qualquer outro mortal consciente, não tem emprego nem muito menos trabalho.  Queria eu fazer como ele e viver a vida sem desgaste. Aplicar o seu lema e acreditar que um dia a vida vai mudar. O senhor Silva tem a teoria mais original que ouvi nos últimos tempos - dizem que a crise vai piorar. Portanto o melhor é ficar quieto à espera que passe. Hã?!


07 Fevereiro 2012


para quê?

ara quê?

Ando há 13 anos numa luta que hoje me parece perdida. Ou pelo menos eu, hoje, estou cansada de lutar.
Sempre encarei as escolas como entidades às quais se aplicam os mesmos princípios de identidade que qualquer empresa ou instituição. Existem, têm uma forte presença na comunidade, comunicam a diversos níveis com o exterior e mais: são estabelecimentos de ensino. Este último aspecto devia ser o mais importante quando se pensa na imagem visual da escola - contribuir desde cedo para o desenvolvimento do sentido estético nas crianças.
As direcções das escolas são constituídas por pessoas pouco sensíveis a estes aspectos. Assiste-se a uma mudança, pontual, absurdamente lenta. Com a proliferação de meios informáticos e tecnológicos, todas as pessoas têm acesso a meios de distribuição e construção de documentos numa escala nunca antes vista; todos constroem sem saber construir, com os menores conhecimentos de comunicação visual. Ainda assim, fazem e porque não têm consciência das suas inaptidões, não aceitam sugestões.

Há alguns anos eu e duas colegas (num conjunto de 150...) propusemos uma nova imagem para a escola. Desenvolvemos para a escola os critérios de imagem corporativa. Não fomos compreendidas senão nos pontos básicos, essenciais, demasiados óbvios. Tudo o que propusemos foi ignorado. Manteve-se alguma coisa: o símbolo, a cor, os cartões.
O símbolo, também aqui é muito maltratado. Altera-se, estica-se, encolhe-se sem pudor.
Com a reformulação da direcção e a minha entrada enquanto "conselheira para os assuntos da imagem" consegui algumas mudanças, nunca tantas quanto pretendi.
Sob a minha alçada criou-se um sistema de sinalética para todas as salas, fez-se uma planta da escola, atribuíram-se cores aos pavilhões - tudo isto ignorado tanto na pintura de paredes quanto num simples plano de emergência.
A maior parte das pessoas não fazem as ligações necessárias para que percebam que a imagem da escola está presente sempre e em tudo o que se constrói dentro da escola. Fazia parte da ideia a venda de marchandising com o logo. Seria uma fonte de receitas, os alunos iriam aderir e perceber o conceito, distribuí-lo...
Foi preciso alguns elementos da direcção participarem numa apresentação sobre imagem coorporativa aplicada à escola para perceberem o que eu ando há 13 anos a dizer... Pensei que podíamos avançar para um livro de estilo, pensei que finalmente a porta se abriria.

Há alguns dias surgiu a ideia, dentro da direcção, de fazer para vender uma agenda com o logo da escola. Aderi, é claro. Os dias passaram e ninguém me pediu o logotipo. Os livrinhos chegaram e perdi a cabeça de vez. Nada do que eu apregoei tinha vingado: o nome da escola escrito em Arial, com abreviaturas...
Hoje apetece-me desistir.

06 Fevereiro 2012

Fracas memórias

abando

Tenho uma memória pouco agradável em relação aos velhotes que antigamente me mandavam piropos. Lembro-me do quão desagradável era ouvir qualquer manifestação de carácter erótico-porco de idosos ou entradotes com quem me cruzava. Não, não é isto um auto elogio, é uma constatação de factos. Eram frequente e sempre desagradável.
Não tinha que ver com a minha idade nem com a minha aparência física mas sim com o facto de ser uma rapariga e caminhar sozinha, de preferência.
Isto ficou de tal modo gravado no meu álbum de registos que ainda hoje sinto a viscosidade desses anónimos transeuntes. Rchamava-os de javardos, badalhocos, nojentos. Enojava-me de verdade. Enoja-me ainda.
Porque é que me lembro disto?
Porque hoje mesmo senti esse mesmo desprezo por um inofensivo ser de quatro patas e muitos anos: Picachu, do alto da sua proveta idade, (do alto é uma ironia porque a sua curta pata nem sequer lhe permite sonhar com cadelas vedetas), babando enquanto sorve o cheiro de um chichi de cadela com cio...

30 Janeiro 2012

amarguras

marguras


Hoje foi a última aula de uma disciplina que funciona por turnos e que dou ao sétimo ano.
Na mala tinha uma tablete de chocolate semiamargo. Achei que era boa ideia partilhar um chocolate com os alunos.
Os seus olhos brilhavam enquanto partiam os bocadinhos.
Saíram da sala à pressa, cuspindo...

descuidos escusados

escuidos escusados

















Num gesto transversal que se começa a tornar intrínseco ao acto de escrever, atinge-se este ponto.
Descobri esta imagem quase ao mesmo tempo de um antídoto inventado por um jovem cansado do copy-paste. 
Sim, ainda os há e há que preservá-los.
Este jovem criou uma série de etiquetas que funcionam como avisos na imprensa escrita e chamou-lhes "Journalism Warning Labels"...





23 Janeiro 2012

Conselhos na revista Sábado para todos os dias do ano

21 Janeiro 2012

o elo mais fraco


elo mais fraco

Estou por estes dias a concluir uma leitura que se encontrava pendente vai para ano e meio. Deram-me a ler "a máquina de fazer espanhóis", de valter hugo mae, num período difícil da minha vida - quando sofria, dizem, de stress pós-traumático. Não foi o facto de ter visto a minha vida abalroada que me impediu de continuar a leitura. Foi sim a intensidade do relato na primeira pessoa na pele de um velhinho que, tendo atingido o posto de viúvo, é pela família internado num lar de 3ª idade. Apesar do sentido de humor e da intensa ironia, que presentemente já consigo vislumbrar, a ideia do desapego de que as famílias são capazes de revelar quando se separam assim dos seus velhos foi por demais atroz. Do desapego aos velhos, da indiferença às crianças, da crueldade aos animais - resta uma geração de coração seco e cruel, capaz de um desapego e de uma frieza de sentimentos avassaladoras.
Essa mesma geração que faz disto e escreve aquilo.





19 Janeiro 2012

comer com os olhos

omer com os olhos


Porque é que é difícil comer chocolates Guylian?
Porque existe nestes chocolates uma relação forma / conteúdo tão desajustada quanto forçada.
Esquecendo o facto de ser uma linha de formas esteticamente agradáveis (refio-me apenas ao desenho sinuoso das formas dos mexilhões, camarões, amêijoas, búzios, vieiras e cavalos-marinhos) ela não é, contudo, suficientemente forte para me fazer levar um bombom destes à boca.
Poderá a maior parte dos consumidores relevar esse factor - a grande maioria valoriza apenas o sabor. O que terá estado na origem deste formato de frutos do mar? Questões simbólicas? Valores estéticos?
São três os factores causadores de repulsa, por ordem de grandeza:
o brilho
a cor
a forma
Confesso que nunca provei Guylian mas não está nos meus planos abdicar do chocolate negro, amargo para sucumbir a estas tentações. Além do mais, sou alérgica ao marisco.

A Guylian apoia um projecto internacional de defesa dos cavalos-marinhos, um dos mais frágeis e delicados peixes, para o qual contribuem todos os compradores de caixas de bombons "frutos do mar" Guylian. É comprar. Para oferecer.

18 Janeiro 2012

gostos ou gastos

ostos. Ou gastos?



Numa imagem de severa contenção das despesas fui investigar meios de locomoção alternativos para fazer o percurso diário casa - trabalho e vice versa (às vezes penso que é uma questão de tempo enquanto não disponibilizam marquesas para dormir umas horas antes de retomar um novo dia de aulas).
Descobri que é caro ter passe, é comprar bilhete esporadicamente e caro ainda porque implica um desdobramento. E é caro porque no fim de-semana não está nos meus planos cingir-me aos transportes públicos.
Para já, e enquanto não vou ao fundo, poupo naquilo que me é verdadeiramente dispensável: a carne e o peixe são o ponto de partida, depois de ter abolido quase radicalmente o leite - junta-se o útil ao desagradável. Evito as máquinas em lavagens dispensáveis.
Não tenho empregada doméstica. Não tenho vícios.
Há no entanto, um gasto ou será um vício? de que não abdico: a minha pet-sitter.
Quem visse a satisfação destes três inofensivos seres ao chegar a casa iria compreender - foram passear na praia. Correram durante duas horas.
E o melhor de tudo isto é que tudo é feito apenas por dedicação e amor aos bichos. Não há passeios rápidos, há levá-los a passear. Porquê? Porque sim.


16 Janeiro 2012

dedicação




edicação 

Pouco me importa que me apontem o dedo porque só falo de cães e porque este blogue é só cães. Gosto demais deles e em particular dos meus.
A legenda desta foto só pode ser uma.
Este cão é vidrado em mim. Acorda comigo, investiga se me levanto a meio da noite, acompanha todos os passos que dou.
Escolheu-me em bebé, já lá vão quase 13 anos.

vamos a votos?


amos a votos?



Apesar das redes sociais estarem a transformar os percursos que se fazem pela internet, assistimos ainda a certas eleições que tentam descobrir blogues de referência. Mesmo que desprezemos a votação, vale a pena pela listagem: http://aventar.eu/blogs-do-ano-2011

15 Janeiro 2012



Para contrariar a pobreza que grassa no país, eis que sou surpreendida com um oásis num serão improvável.
Dois senhores que bastam por si só (havia dois pivôs? onde?) para nos alegrar os rostos pesarosos pelos dias de sucessivas e deprimentes notícias.

14 Janeiro 2012

velho cão


O meu novo velho cão não tem nome.
As diversas tentativas têm saído goradas - ou não colam ou ele não reage a alguma.
chegou como Picachu mas falta-lhe o amarelo para lhe dar sentido. Numa confusão de nomes, passou a ser Machu Pichu. Apenas Pichu. Roberto, Farrusco.
Hoje tive visitas que me ajudaram a afastar alguns fantasmas durante um animado almoço. Amigos outrora presentes diariamente e que agora só de vez em quando tenho oportunidade de rever.
As crianças propuseram chamar-lhe Óscar. Gostei, mas o Dartacão nem por isso. Talvez nenhum pegue.


Continua em aberto o nome do pequeno cão que só quer dormir e comer. E que na rua demonstra sofrer do síndrome dos ossos de frango atirados para a rua.


antástico


Insere-se nesta espécie de maldição rogada aos portugueses a introdução de um elemento, em tudo comparável ao célebre Emplastro, em tudo o que é produção mediática. Mesmo quando nos baralha entre o ridículo, o absurdo e a seriedade, a convicção do seu discurso catapulta este rapaz para o pódio dos milagres.
Ei-lo aqui, expressando essa saga como quem do nada, conseguiu fazer tudo. Destaco, obviamente, as peças que intercalam a entrevista.

11 Janeiro 2012

ot hot hot



10 Janeiro 2012

gradecimento 


Uma jovem mãe, acompanhada pelos seus dois filhos, cruza-se no nosso caminho. Ao pedido do petiz, a mãe pergunta-me se podem fazer festas aos cães.
Ao fim, para além das boas noites, agradeceu.
Como se algo de bom lhes tivéssemos oferecido.




xperimentando...


Durante mais este tempo de pousio, outras redes ganham terreno e novas alterações foram introduzidas no blogger.
À primeira vista, atrapalha o esquema em que publico.

15 Outubro 2011

econstrução

Alguma da obra de Vik Muniz, em exposição no Museu Berardo, não se deve deixar de ser vista. O filme abaixo tem uma hora e meia de material inusitado, importante em termos artísticos mas fundamental enquanto documento social.
Vik destrói as tradicionais concepções de arte, desmonta a nobreza dos materiais explora o quotidiano, o fugaz e tira proveito do que no quotidiano em lixo se transforma; usa o desperdício como matéria construtiva sem nunca mostrar a verdade, o original, o ponto de partida. Deixa que sejamos nós a descobri-lo.
É ou não essa forte iteração com o público o objectivo que qualquer artista sempre desejou atingir?




















13 Outubro 2011

03 Outubro 2011
























O Lançamento terá a presença de Ana Galvão, que assina também o prefácio.
Perguntam-me Quem é essa no mundo dos livros? No mundo dos livros será ninguém.
No mundo da rádio tem um papel que culmina com quase 49 mil "gostos" no facebook. Será isso bastante?

bolacha



Quando me afasto desta forma é porque alguma coisa está para acontecer. Em algumas vidas é sinal de namoro, passarinho novo. No meu caso acontece que tinha um livro em mãos e um ano lectivo, ou melhor, letivo, a começar.
Deixei arrastar as ilustrações do livro durante as férias. O resultado foi terem explodido todos os prazos na mesma semana.
O livro está aí, a ser lançado esta semana numa biblioteca perto de si.
Trata-se de uma obra solidária em que autor e ilustradora trabalharam para uma causa por demais justa.
Posto isto, e impresso o livro, recordo-me que um dia escrevia aqui. Volto com uma dúvida importante a propósito do dia do lançamento quando um grupo de amigas se propõe fazer bolos e bolachas para o evento. Bolos em formas de cão, de osso... Biscoitos em forma de cocó de cão. Bolachas em forma de cães, gatos e restante fauna doméstica.
É aqui que surge a dúvida: será algum dos convidados da ala dos amicíssimos dos animais, alguns vegetarianos, ser capaz de trincar e até comer um biscoitinho em forma de cão ou gato?
Poderá isso ser um sacrilégio?
Indiferente às minhas próprias dúvidas, comprei uma formas para cortas bolachas com formatos animalescos.
Tenderei a massa, recortarei as formas.
E então a questão será: deixo as bolachas planas, em silhueta, sem vida?
Ou atribuo elementos caracterizadores às figuras, como olhinhos, boquinhas, orelhinhas...? Bolachas fofinhas com olhos suplicantes que gritem Não me comas, Não me comas...

07 Setembro 2011


s batatas desfizeram-se

enquanto coziam no tacho, mas que importância tem isso perante uma coisa destas?!


03 Setembro 2011

profundidade das minha dúvidas

Uma questão que continua sem resposta foi-me colocada pela minha amiga CN quando me viu com PV cantar algumas músicas do Tony Carreira - como é que vocês sabem isto? Onde é que estão quando ouvem isto? A dúvida fica no ar porque nem eu sei muito bem. Estas músicas propagam-se, estendem-se pelo éter, estão em todo o lado...
Outra dúvida surgiu-me a propósito desta música, versão que não sendo recente, se baseia num original mais antigo ainda. Achei as referências que me baralhavam. E estou muito mais feliz hoje...!
Se essa rua fosse minha é uma canção popular brasileira cantada por um qualquer ídolo português na época das melodias de sempre. Porém, José Cid fez uma versão (com um sucesso estrondoso nos anos 80) dum original cantado por Paul Anka e resultou nesta versão, suavizada pela bandazinha Super Teen, e usou alguns versos daquela cantiga de roda.

Recortei a luz da lua
E colei num papelão
escrevi assim, sou tua
E te fiz um coração

Encontrei-te hoje na rua
Nem me deste atenção
Eu não sei qual é a tua
Coração de papelão

E então chorei
E até pensei
Amor, assim para quê?
Meu bem, não sei
Fingi que nem te olhei
Sempre quis, meu amor
Namorar com você

Se essa rua fosse minha
Eu mandava-a ladrilhar
Com o brilho dos teus olhos
Só para o meu amor passar