desafioKeké tem vinte e dois anos, voltou à escola e a escola deu-lhe uma nova e derradeira oportunidade. O ano lectivo está no fim e ele sabe tanto como há oito meses, como há três ou dez anos. Não falta nem chega atrasado; está sempre a fila da frente, grande demais, enorme para o lugar. As riscas do penteado devem demorar tanto tempo a fazer como as lentas passadas que o levam à sala de aula. Resiste aos nervos que provoca, às descompusturas de que é vitima, às brincadeiras dos colegas que, em vez de terem piedade, lhe acham graça e aos grunhidos que emite. Apesar da indolência irritante, é muito simpático. É incapaz, porém, de fazer aquilo que a escola está lá para lhe dar: aprender.
Hoje pediu-me ajuda encarecidamente, levantando as mãos no ar, que não percebia nada. A folha limpinha, de papel cavalinho tinha meia dúzia de traços delicados, feitos tão ao acaso que quase batiam certo. Estava tudo errado, afinal. Havia que partir do zero. Disse-lhe que não ia deixar de ensinar os colegas e parar a aula por causa dele; que estudasse, que eu estaria ali depois, para o que precisasse. Foi então que me respondeu, com um olhar desafiador e um sorriso trocista:
- Esse é o desafio: conseguir que eu estude!
E ando eu a perder tempo a corrigir testes que não passam de 5.
1 comentário:
5? o desafio? há cada coincidência.
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