hapéus há muitosUm guarda-fatos a abarrotar de casacos com ombros levantados da década de oitenta, tão largos que impedem as portas de fechar. Tailleurs tipo channel com saias de racha atrás, blusas brancas de cabeção e rendinhas, camisolas de licra coloridas e justas - tudo amarfanhado em roupeiros soperlotados e gavetas mal fechadas. Sabrinas de verniz, ténis descorados das lavagens, com atacadores esfarripados, metidos a tralhão em caixas debaixo da cama.
Prateleiras com chapéus, muito chapéus, meticulosa e devidamente embalados, sem um beliscão nem um pózinho. É assim que deve ser o closet de Mariazinha.
Uns risonhos olhos azuis num rosto sardento de feições finas, Mariazinha tem um coração generoso, mas um péssimo gosto no trajar. As peças, por si só, não são feias, mas em conjunto, estragam-se; um casaco elegante e de bom tecido é arrasado por um sapato da pior espécie; o conjunto desportivo e informal é arruinado pela bolsa atada à cintura que disputa com as formas redondas do ventre, devidamente marcadas pela justeza das roupas muito garridas. O todo torna-se assustador e ignora a beleza das partes. Como se abaixo do ombros não bastasse a confusão, acima deles Mariazinha usa chapéus com abuso. Chapéus bonitos, de formatos diversos, de delicados materiais, com cores variadas ou uma só. Sabe colocá-los na cabeça consoante o género - de abas, caqui, capelline, scarllet, com faixa e sem, inclinado, a direito, mais enterrado ou não, mas não sabe quando deve usá-los. O chapéu tornou-se uma imagem de marca. Se fosse preciso criar-lhe um símbolo, estava o problema resolvido.
Mariazinha tem grandes preocupações e uma delas é social - não deita nada fora, pelo contrário, recolhe, amontoa. Recicla uma pequena parte porque da grande parte já lhe perdeu o tino. Não tem noção do que tem, porque se limita a guardar. Quem ouve o seu discurso, tem que concordar com ela -clama que todas as coisas podem servir para outros fins que não aqueles para os quais nasceram (eu própria ponho em prática esse princípio) e que portanto, o melhor é não deitar fora (quanto a isso, tenho algumas reticências). Como ia dizendo, Mariazinha recolhe. Recolhe tudo em todo o lado, mas há lugares preferênciais: o ecoponto ao pé de casa. Curiosamente, ao pé da mesma sua casa, existe uma gráfica que se tornou na sua maior fornecedora de desperdício. A dimensão não a atrapalha e se de difícil transporte, não o bastante que a demova de as arrastar.
Tenho um gosto exagerado pelo ridiculamente risível e Mariazinha dá-me belos motivos, mas recentemente colocou-me no meu lugar duas vezes:
Envergava um fato saia-casaco branco, impecável, e na cabeça, uma capeline beje. Elegante? Bonito? Não: trazia nos pés umas sapatilhas! Seguia calmamente o seu caminho até estancar em frente ao ecoponto fatal (eu seguia-a enquanto procurava lugar para o carro). Desapareceu do meu olhar para voltar a aparecer pendurada no enorme caixote de lixo. Peguei na máquina fotográfica... e voltei a arrumá-la. Uma mistura de dó e vergonha fez-me recuar.
Cansada de ver o estado miserável de desarrumação da arrecadação duma das salas onde trabalho, investi contra as pilhas de sacos e demais tralhas que se acumulam há anos. Caixas vazias com pincéis e tintas secas, cordas, vestidos de papel, troncos de madeira... Diversos sacos cheios de pequenos electrodomésticos avariados foram metidos na mala do meu carro para depositar no Electrão quando fosse para casa. A cinco minutos do alvo, recebo uma chamada duma colega, pedindo que os levasse de volta. Mariazinha exaltou-se, saiu de si e do chapéu, bem a ouvia lá ao fundo, aos berros. "Precisava daquilo" e eu "não tinha nada que mexer no que não era meu". Afinal, o que eu considerei lixo não era lixo e tinha dono.
Vi a satisfação estampada no seu rosto ao espreitar para dentro dos sacos. Estava tudo, incluindo a chaleira amarela rachada e cheia de pó, um passe-vite, duas lanternas, três rádios a pilhas, uma torradeira, três ferros de engomar, duas cafeteiras, vários secadores de cabelo.
Contou cinco destes, "todos diferentes" mas todos iguais num ponto: nenhum funciona. Três sacos de objectos de uso comum e baratos, aos quais a maior parte das pessoas não presta atenção. Que fazem eles numa escola?, pergunta-se.
Teriam razão para existir ali quando se estudava design; quando se analisavam formas e funções, usabilidades, custos e materiais - aquilo que justifica o objecto. Fazem sentido hoje, segundo Mariazinha, para os alunos desenharem quando não trazem outro material, o que é problema diário.
Alguém que lhe metesse debaixo do chapéu essa verdade insofismável: qualquer objecto que aparente ser lixo poderá deixar de o ser se se souber expô-lo numa estante, numa vitrine, num lugar decente. Assim, como aposto que faz com os seus chapéus.
Venha o que daqui vier, uni-me a ela: arranjámos maneira de os expôr, de os tornar apetecíveis ao estudo e à mão, de os tranformar de lixo a objecto de estudo. Deitamos fora os sacos e limpámos o pó.
Talvez em breve eu própria faça uso deles em breve (embora eu continue a achar que os alunos de desenho têm na própria figura da professora o melhor modelo de todos os tempos). Pelo menos, em termos de chapéus, todos os dias têm um novo para desenhar.
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