iltro solarJonathan sentia-se em casa, embora ainda lhe faltassem duas longas horas até à sua aldeia e à casa que concluiu no ano passado. Foram longos anos a trabalhar dia e noite mas o esforço foi recompensado. Este ano, iria pintá-la e não via a hora de ir encomendar a placa com os dizeres tanto pensados: Vivenda da Silva, uma obra de Jonathan da Silva. Só ainda hesitava entre o mármore (demasiado parecido com a lápide da campa do pai) e o painel de azulejos (que lhe recordava a capelita da aldeia).
O mês não iria dar para todos os sonhos mas haveria de rumar ao litoral, apanhar o sol proibido durante o resto do imenso ano de trabalho - embora passasse o dia ao ar-livre varrendo com afinco o monte de folhas velhas que se acumulam nos longos caminhos do Centro (assim se referia ao seu local de trabalho), de cujos jardins cuidava em exclusivo.
Jonathan era muito cioso do seu trabalho e nunca os canteiros tinham tido amores-perfeitos tão perfeitos, tão coloridos, tão viçosos. Tratava das flores como se fossem suas, aparava os buxos com as formas originais, como as que o tio Afonso fazia nos arbustos do cemitério da sua aldeia. Foi com ele que ganhou gosto pela terra, mas felizmente a vida sorriu-lhe na forma de folhas e flores.
A prima Adelina tinha alugado uma casa na Tocha a contar com ele e a sua prole - com o Jonas, assim lhe chamava desde pequena. Não via a hora desse encontro. Ansiava pelo sol e por um mergulho nas gélidas águas. Não!, para ele eram quentinhas, faziam milagres, rejuvenesciam, davam energia. Este ano mostraria aos filhos, que com ele vinham pela primeira vez, o que era uma praia a sério, um areal extenso, livre e claro. E também lhes mostraria como é lindo o verão em Portugal e como é quente o verão nas praias do norte e também lhes mostraria como são lindas as mulheres portuguesas. Talvez os miúdos ainda não tivessem idade para perceber a diferença, mas tinha que alertá-los de pequeninos.
A casa não era grande mas eles amanhavam-se todos, até porque já estavam habituados a espaços pequenos. O pior era sempre a hora das refeições. Às vezes faziam-nas em casa, mas Jonas preferia jantar fora, numa churrasqueira perto. Estava habituado ao barulho dos seus, que nem sequer faziam barulho, mas quando havia mais famílias como a sua no salão, o resultado era caótico, diziam-lhe. Apesar das queixas dos outros, nada lhe tirava o bom paladar das férias. Não lhe importava que lhe criticassem a camisola sem mangas, as chinelos enormes, o linguajar trapalhão recheado de asneiras, os berros com que chamava as crianças. As férias eram para isso: desanuviar, mesmo que o mundo caísse à sua volta e que esse fim do mundo fosse provocado pelos próprios filhos. Ao fim de jantar poderiam desentorpecer as pernas até ter vontade de dormir. Mas ele gostava mesmo era de matar saudades das tripas, nem que para isso tivesse de passar uma hora numa extensa fila com o mais novo aos berros. Enquanto esperava, apreciava as lindas raparigas que passavam. Lindas, pensava ele. Não obstante Adelina lhe ir dizendo que a praia estava minada de miúdas gordas. E que estava frio e que não valia a pena ir à praia para se constiparem...
Jonas sentia-se diferente havia dois anos. A vida sorria-lhe e ele sorria para a vida. E sorria ainda mais depois daqueles dias em que estivera internado no Centro, quando lhe prometeram um aumento de ordenado e uma vida feliz.
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