02 maio 2010

u, animal de quatro patas - IV

Tenho passado o último mês mergulhada numa cor cuja constância é alterada por guinadas ritmadas, localizadas na zona da tíbia. A dor recorda-me as caneladas que o meu primo, em criança, me dava com as suas duríssimas botas ortopédicas. Esta dor, que os fortes analgésicos não tiram, ainda está por explicar e espero que os próximos exames me dêem resposta. No entanto, desde ontem, tornou-se mais suportável e isso tem consequências.
A passividade com que tenho aguentado isto tem um motivo: espero uma melhoria no minuto seguinte, na posição seguinte, no remédio seguinte; mas essa passividade está a dar lugar a uma revolta crescente. Não (ainda?) contra quem me provocou os danos; contra os médicos que não viram o que deviam ter detectado no primeiro dia, que não mandaram fazer os exames certos, que não acreditam na minha dor; cujo chefe de equipa e operador foi de férias no dia em que me deu alta e ainda não voltou; contra o médico a quem fiquei entregue, mas que não consegue, talvez, digo eu a desculpá-lo, atender aos doentes dele e do outro. Creio isso para não crer na sua incompetência.

Estou aliviada porque tenho um advogado e tenho duas tarefas para ele: resolver o problema com a seguradora e mover um processo contra o hospital se entretanto não obtiver as resposta que procuro.
Estou muito aliviada por tenho um pet-sitter que me resolveu um problema de consciência e um problema prático: passeia-me os cães à tarde e à noite, rápidos demais para o meu gosto e o dos cães... Os relatos das passeatas revelam-me uma Lolita traumatizada. Se a sua anterior vida fora difícil, está neste momento mais medrosa, com temos aos carros que tocam música alto, aos motores mais potentes, às acelerações ruidosas. E continua o seu pânico de ambulâncias. Se já tinha, aumentou.

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