nimalicesA mim acontecem-me muitas coincidências. Algumas são dolorosas, como esta.
Faz mais ao menos quatro meses (como é fácil para mim agora medir o tempo!), guiando eu pela marginal, vi um cão acidentado. Hesitei, como é meu hábito, mas fui inverter a marcha muitos metros à frente para, quem sabe, poder ajudá-lo. O animal estava prostrado no chão, morto. Não podia fazer nada mais por ele senão tentar encontrar-lhe os donos, que imaginei aflitos à sua procura.
Pedi ajuda à única pessoa que circulava a pé - recusou dar-me a mão. Avisou-me que tivesse cuidado, porque ainda poderiam acusar-me de ser eu a causadora de tal destino do animal. Disse-me que tinha os contactos da entidade responsável a avisar e que iria tratar disso de imediato.
Retive-me a olhar para o cão, memorizando os sinais: jovem, pelo curto castanho com malhas brancas no peito, porte grande, coleira verde. Lindo!
Durante dias evitei aquela estrada e optei pela auto-estrada. A imagem do cão deitado à beira da estrada acompanhava-me e incomodava-me demais...
Ontem, como um relâmpago, vi o cão quando vagueava na internet, sem conseguir precisar onde. Um arrepio deixou-me gelada. Onde tinha visto aquilo? O mais provável era ser no facebook - percorri o mural disponível e encontrei-o muito abaixo, remetendo para demasiadas horas atrás; não interessa, estava lá. Não, não era possível. Tanto tempo após, não poderia ser ele. Reli o apelo muitas vez. Confirmei ser o mesmo cão pela indicação do local do desaparecimento.
Que devia eu fazer? Telefonar a dizer que não valia a pena procurarem-no? Ignorar? Nenhuma das hipóteses me parecia adequada e muito menos confortável.
O anunciante tinha 14 anos. Procurava o seu cão, multiplicava os apelos, pedia ajuda em diversos sítios a isso destinados. Tentei encontrar um adulto entre os amigos dele, pais, tios, irmãos mais velhos. Tínhamos um amigo comum. Recorri a ele. Avisei-o e pedi para reencaminhar a mensagem em que descrevi a situação. Eu sei porque sei que, nestes casos, mais vale saber logo o desfecho do que acalentar esperanças.
A mensagem chegou ao destino, mas até agora o miúdo é o único que não aceitou a morte do cão.
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