28 setembro 2010

onsumo ilimitado

Liguei para dar um contacto telefónico. Simples, rápido, sem dor.
Gabriela contou-me que estava para vir ao hospital que fica perto de mim mas não veio. Que o médico a mandou lá ir mas ela pediu para deixar para amanhã; mas quem a atendeu foi uma enfermeira, que há dias em que entra a uma certa hora mas hoje entrava a outra; que estava baralhada com a outra, ai, a, ai, a assistente social que é muito querida; que quando ia para telefonar o cão lhe mordeu no braço porque queria uma coisa que ela estava a comer; que lhe deu tantas com um chinelo que ele ficou todo o dia cabisbaixo; que a mãe precisa de ajuda para tomar banho e que, portanto, quando o médico ligou ela não pode atender; que o médico ligou de novo, foi muito simpático; que teve muita sorte porque naquele hospital são todos muito queridos; que a, a, ai, a assistente social, já baralho tudo, lhe disse que precisava que ela lá fosse buscar a cadeira de rodas; que a filha vai para a faculdade à tarde e não pode lá ir por ela; que acabou por ir à farmácia comprar os medicamentos, aquele, o, ai, ai, o argumentin, alumentin, ai, como é? Pois, augumentin; que o cão está triste porque levou tantas; que o contacto que precisava que eu lhe desse era para uma amiga com quem já não fala há dias porque quando lhe liga ela não pode atender.
Vou passar a fazer o mesmo; não posso atender.
Acabei por mandar o dito contacto por sms...

23 setembro 2010

número 1

Sou avessa a listas e sempre me recusei fazê-las quando me pediram para enumerar as minhas preferências nos filmes ou nas músicas. Tenho um gosto alargado e que varia conforme os dias. As únicas listas que faço e que me auxiliam sobremaneira são as de tarefas, nas quais de aplico com afinco.
Há no entanto, um álbum que diria no topo das minhas escolhas: The White Album, The Beatles.

relatividade das coisas

Vejamos o meu traje de hoje: calça preta baratucha com fitilhos, camisola com um enorme boneco infantil, sapatilhas douradas com a pontamentos vermelhos e soquetes roxos. Impensável em mim? Inaceitável? Era. Confortável? Agora, siiiim. O conforto justifica. O conforto e a necessidade relativizam o bem parecer. Olhando melhor, a subtil risquinha da camisola condiz com o soquete...
A pessoa com quem vivi durante 18 anos costumava dizer que, se lhe saísse o euromilhões deixava de trabalhar; nunca mais apostei em jogo nenhum, pois isso era coisa que eu não desejava. Agora, estou sem trabalhar e não me saiu o euromilhões (e nem poderia...)
Não me queixo - ainda não tive tempos mortos. Muitas pessoas, quase todas as que me telefonam para saber do meu estado de saúde e anímico, acham que devo estar farta de não ter nada que fazer. Enganam-se redondamente: eu tenho muito que fazer (escrever posts parvos, por exemplo). Outras dizem "quem me dera ter o tempo livre". Enganam-se todos, estão todos enganados.
Estou fora do circuito do trabalho condicionado mas isso ser mau, é relativo...
Tenho todo o tempo para fazer as outras coisas que queria fazer antes e que por fala de tempo não fazia. Mas ter todo o tempo e não ter horários é bom? Isso é relativo...
Acelerar está-me no sangue mas não adoptarei mais o ritmo alucinante que trazia antes de me derrubarem.
Então agora adeuzinho, que tenho que muito que fazer.

20 setembro 2010

scorregar e não cair

Tropeçar e cair foi uma coisa que sempre me aconteceu e com a qual sempre convivi em harmonia. Agora, desequilibrar-me transformou-se num dos meus maiores receios, talvez porque esteja a relaxar a (com)postura.
Nos últimos dias tenho vindo a evitar quedas por um triz. Hoje entrei, para atender a um favor, numa ortopedia perto de minha casa, sítio em que não entrava desde que andei de canadianas. Quando sai da loja escorregou-me o pé direito e quase fiz uma espargata porque um pedaço enorme de plástico se colara à sola da sapatilha. Fui salva, ironicamente, por uma cadeira de rodas.

16 setembro 2010




Sempre me disseram que sou muito transparente. Eis a prova.
Recentemente disseram-me que fiquei com uma dismetria. Eis a prova.
8mm.
É claro que já mal se usa, estou a pensar mudar para Super-8.
oisas que deviam vir com folheto de instruções...


anjinha

De entre as várias sopas, escolhi canja e a senhora a seguir a mim também. Espantou-se quando a serviam; a empregada, percebeu e disse, com acentuado sotaque, que na terra dela a canja era uma outra coisa, que tinha pedacinhos de galinha do campo e muito arroz que ficava soltinho.
A senhora contrapôs, argumentando:
- Mas isso não é canja, isso é arroz.
E calou-se, achei eu. Mas não, ela repetia baixinho:
- Ai! Como é que se chama aquilo... como é que é?... então não me esqueci?...
Virou-se para mim e perguntou-me:
- Na nossa terra como é que se chama aquele arroz com frango, que fica soltinho...?
- Malandro? A correr?
- É isso mesmo! Obrigada.
Ficou a contar pormenores à empregada.
Nota: a senhora tinha a pele escura. Acharia que eu sou da terra dela? Estarei assim tão diferente?

15 setembro 2010

ida tão estranha


São de veludo as palavras
Daquele que finge que ama
Ao desengano levo a vida
A sorte a mim já não me chama

Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão maltratado
Já nem chorar
Me traz consolo
Resta-me só um triste fado

A gente vive na mentira
Já não dá conta do que sente
Antes sozinha toda a vida
Que ter um coração que mente

Rodrigo Leão (com Ana Carolina)



Lindo, não é?

14 setembro 2010

ra esta

Comecei a reformular visual mas levemente um site - não lhe mexi mais do que apenas uma página e isso põe em causa minha imagem e a da escola a que pertence, que por acaso é também a minha. Pedem-me para colocar lá informação nova e eu peço um dia, um singelo dia até chegar a casa e ao meu computador. Espero que a este pedido se sigam mais, porque não tenho jeito para inventar informação de cariz oficial.
Leio o mesmo livro vai para dez dias e não avancei mais do que 50 páginas e no entanto a adorar.
Perguntam-me a minha idade duas vezes no mesmo dia - uma delas encheu-me de orgulho e a outra fez-me arrepender de ter escrito certas coisas...
Entretanto torno-me amiga no FB de uma pessoa que é amiga do Azeite Oliveira da Serra 2010. Mas o que é isto?
iiiiiii...

Não vás para a piscina porque estás a fazer a digestão; não estejas no computador até tão tarde; tira a cabeça do sol; come a fruta antes do almoço; não te encostes tanto ao carro da frente; não estejas no computador até tão tarde; sai daí ou fecha a janela por causa da corrente de ar; hoje não pões brincos?; não faças tantas festas aos cães; não atendas o telefone sempre que ele toca; cumprimenta a senhora; não estejas no computador até tão tarde...
ordados lindos

Sou, desde sempre, aficionada pelos trabalhos manuais femininos mais tradicionais e dos mais subversivos. Das inúmeras coisas que das minhas mãos saíram não guardo cópias e o que produzi fui oferecendo em aniversários e eventos afins. Lamento as fotografias que se perderam em sucessivas mudanças de casa e por obra de muito desleixo.
Tempos houve em que as minhas amigas me olhavam de lado porque eu bordava a ponto de cruz e com bastidor quando isso não se usava e era tido como sintoma de provincianismo e parolice. Nunca me incomodaram tais epítetos tal como não me incomoda dizer que me sabe bem ouvir determinadas músicas... Gozem à vontade, que o meu gosto é abrangente e as costas muito largas (agora mais largas ainda).

Um dia destes encontrei esta forma marota bordar. Veja-se a título de exemplo este pano do pó e não me digam que não é um bordado lindo.
Não é isso que se pensa quando se limpa?

13 setembro 2010

nervações

Sair de casa e da rotina de quase cinco meses é bom mas já tenho saudades dela.
Percorri nos últimos dias alguns locais já um pouco distantes na memória e na presença a propósito de uma festa de família. Foi bom rever pessoas e espaços mas anseio por voltar a casa. Tenho saudades do meu animal de oito patas que deixei em casa pela primeira vez. Sinto muito a falta deles mas não podia impor aos outros a sua presença, porque, ainda por cima, não foram convidados... Habitualmente não se convidam cães para festas.

Aproveitei as promoções de Setembro e uma escapadela num hotel de muitas estrelas na Boavista. Desloquei-me com a minha mãe no seu carro - o nosso toy(ota) FE ofuscou todos os audis, mercedes, lamborghinis e porshes que habitavam o parque de estacionamento...
Como diz a minha mãe, é bom de vez em quando fazer vida de rico nem que seja por pouco tempo. O fausto de dois dias contrasta com tudo o resto que encontro pelas ruas em todo o lado: a deseducação das pessoas. Desgosta-me por demais a rudeza, a falta de respeito pelo outro, a inconveniência, a grosseria. O pai que aguarda os frangos assados e senta a menina no balcão, provavelmente com a cueca borrada; o velho que quase me pisa os pés em cima da passadeira e tem o sinal vermelho; a fedelha que não me deixa sair com o carro do quintal porque estacionou em frente; os fussangas que passam à frente de todos estejam de carro ou a pé; a família que discute na rua; a criança que não tem maneiras à mesa e berra por tudo e por nada; as pessoas que chupam a comida; as que mascam pastilhas de boca aberta!!! Isso, isso sim enerva-me profundamente. Apetecia-me mandar-lhes à cara um paninho do pó que encontrei ontem...
ão é gelatina...

09 setembro 2010

ustaaa

Canso-me de tanto cumprimentar pessoas que me pensavam com uma perna estragada para o resto dos meus dias. Experimento retomar hábitos e percursos de sempre e custa. As pedras do chão serão diferentes aqui? É o granito mais duro? As ruas são mais compridas? É a minha falta de hábito? Seja pelo que for, aqui custa-me mais caminhar. Tenho dores. Canso-me. Custa não estar em forma.


atetices

A igreja do senhor Madureira...















E em caso de dúvida...

08 setembro 2010

hese boots were made for walking...


ausa


Tanta autoestrada e nenhum estrago!
Parar para alongar as pernas e prosseguir sem problemas.
Faz seis meses desde a última vez que fiz esta viagem. É bom fazê-la para voltar a casa.

A casa está muito fechada desde que a minha mãe se mudou para junto de mim na minha convalescença e o caruncho tem estado aqui a passar férias. Viu-se que abusou.
Não seja por isso. Acho que conseguimos conviver.


07 setembro 2010

uminâncias

Não estando eu no melhor da minha forma e precisando muitas vezes que alguma coisa que de ânimo, venho a receber há três dias, mensagens via email que pedem que envie luz. Bem sei que agora há aquela modernice que permite gerarmos luz e vender ao parceiro, mas esta não é um pedido da edp.
Pedem-me luz para pessoas em dificuldade e com problemas de saúde difícieis de resolver e cumprimentam-me com um Namasté!
Estou hesitante entre oferecer um facho ou uma velinha mas tenho medo que venha a precisar delas.

06 setembro 2010

star alerta


O olhar zigzagueando como o Kitt do fabuloso Michael Knight é com o que me pareço e me sinto quando conduzo. Embora não tenha visão nocturna, este modo traz-me alguns dissabores e apenas uma alegria: é que e difícil que me escape qualquer veículo que esteja no meu raio de alcance.
Os dissabores, porém, são aquilo que escusava de ver, as coisas que me desgostam e perturbam - um cão ou cadela que vagueia à beira da estrada, um saco de lixo, garrafas de litro de cerveja, um cartão enrolado, um gato, coelho ou esquilo esmagado. Viver com isto é estar sempre em sobressalto, é estar sempre em modo de alerta, é nunca baixar as armas. É levar comigo sempre alguma coisa que me entristece em vez de me distrair. Outrora um passeio de automóvel era relaxante; hoje pode ser um pesadelo. Confesso que luto contra isto, mas não consigo deixar de ver, de olhar.
Isto leva-me amiúde a outra questão, que é semelhante a uma que vivi e que me magoou muito: perder um cão. É activar impensadamente o modo Kitt e reconhecer o cão de alguém que o procura porque se perdeu; ficar contente porque o reconhece e depois... não conseguir fazer nada!

Foi porque não pude reter um cão perdido que me muni de três cartazes e fui colá-los nas estações de Oeiras, Carcavelos e Parede quando já estava escuro. A estação de Oeiras estava repleta de malta que se escoou num ápice, ficando apenas um homem preto, bem parecido, de chapéu e mochila às costas. Dirigiu-se a mim e foi dizendo:
-I'm an american black man - e esfregava o braço para eu ver bem - How can I go to Trajouce? I'm american, you see?
-You have a taxi here...
-You have wonderful teeth. And your legs are beautifull ...
Deixei o homem grande e escuro a falar sozinho enquanto via a minha mãe cada vez mais pálida dentro do carro.
Corri a colar os cartazes e quando voltei a casa, em modo Kitt, lá estava o homem escuro a tocar informações com um jovem. E sinal de cão, nem um.

05 setembro 2010

ilent noise, etc

Dona Teresa veio munida com o seu portátil - queria que a "ajudasse com a internet". Preocupava-a o facto de ter dado a password do portátil ao seu psicólogo. Quereria ele saber realmente o código para fazer uso dele? Ou essa palavra permitia-lhe intuir qualquer coisa sobre si própria?...
Havia uma outra médica de quem aguardava uma tabela de alimentos permitidos na sua alimentação, que tem que ser cuidadosamente regrada. A dita mensagem não havia meio de chegar... Estava numa conta de correio que não era visitada desde Abril porque não sabia escrever o endereço de acesso.
-Então e a sua mãe, como está?
-Não me fale disso porque nem uma tarde chegava.
Anuí - não sou psicóloga embora também saiba as suas passwords.
-Sabes, queridinha, ainda não sei se fico naquela casa - continuo a ouvir muito barulho mas não encontro uma sossegada...
Dona Teresa encontrou um trabalho esporádico que lhe está a dar algum ânimo. Mas tem um problema: o seu irmão precisa de uma transfusão de líquidos de 3 em 3 horas e não tem com quem deixá-lo.
Qual era a sua proposta?! Guess...

02 setembro 2010

peadeiro

Foram precisos alguns longos minutos para assimilar a resposta da junta médica que se reuniu ali apenas para me contrariar. Não é todos os dias que se ouve e com agrado, que se tem mais um mês de baixa. Não preciso que me inventem ocupações, que estratégias para combater o tempo, tenho montes. Não preciso de conselhos cerca do que devo fazer para recuperar mais depressa. Não me digam nada. Finalmente, terei tempo para nadar, andar de bicicleta e correr se tiver pernas para tanto.