16 junho 2011
14 junho 2011
13 junho 2011
noiva e o mortoMarina está noiva e vai casar em breve. Tem poucas recordações do pai mas vive na sombra duma figura severa, intransigente, ríspida, mas honesta, virtuosa, exemplo de rectidão e humildade, pai extremoso; deseja perpetuar a sombra dessa figura enigmática, não admitindo sequer um beliscão no perfil do perfeito pai de família.
A noiva não sabe o quão longe está da verdade e nesse credo colabora a mãe, que , conhecendo de ginjeira o figurão, recusa a verdade, tornando-a quase verdade tanto aos olhos de Marina quanto de alguns amigos recém chegados ao seu meio. Nunca quis aceitar a verdadeira essência do marido e pai das adoradas filhas.
Serafim foi-se subitamente enquanto saltitava entre celas na Judiciária, em Lisboa, acometido por um enfarte, quando Marina era pequena. Foi o fim de uma vida de embustes e disfarces que terminava com um começar dormente pelo braço acima. Nada havia a fazer, diziam os médicos, e o corpo viajou de ambulância como se estivesse apenas ferido para evitar custos avultados e os processos morosos da trasladação; não foi isso que fez nascer o boato de que Serafim não estava morto, que aquele corpo não era o dele e que ele tinha fugido são e salvo para o Brasil. Foi porque o conjunto de acções que o caracterizavam e enfim, toda a sua vida, levavam a crer que era provável e natural que Serafim assim procedesse. A única vez que foi verdadeiro na vida, terá sido na morte.
Passaram mitos anos sobre esta morte, Marina está para casar e ainda há quem jure que o viu no Brasil. Ela desconhece que o seu pai era capaz de vender por ouro o mais pobre dos plásticos; que passava a fronteira embrulhado em notas para salvar fortunas; que vivia de noite para fechar negócios; que vigiava assaltos a altares; que escolhia os amigos tendo em vista o seu proveito.
Não vale a pena avisar a Marina. Pelo menos em relação ao pai, ela está feliz.
11 junho 2011
vincoFatos amarrotados, casacos de xadrez de ombros largos, calças curtas expondo um pé de gesso; um pulôver com pó, um buraco de traça. Tudo isso me incomoda e faz pena principalmente se for numa pessoa como aquela que vi subir a um palco para receber uma medalha que será, talvez, o símbolo máximo de um vida dedicada a um projecto. Pessoas que se dedicam, que sofrem por carregarem o peso de uma entrega até ao dia em que têm que se apear porque a idade não perdoa embora o corpo não denote cansaço. Tenho pena, mesmo que brinquem comigo por isso. Estou sempre a dar azo a que isso aconteça.
Um dia destes um amigo queixava-se deste blogue: dizia que está muito deprimente. Não me custa a crer mas no momento não consigo alterar o registo. É esta a prova do nada premeditado que é isto tudo e muito menos eu. Para coisas mais alegres é voltar daqui a uns tempos ou mudar para o canal parlamento (ainda existe isso?), por exemplo, que deve estar de gritos.
10 junho 2011
08 junho 2011
06 junho 2011

uma pena
O pais alaranjou e o líder demitiu-se num discurso que não diferiu do estilo do costume; surpreenderam-me os gritos histéricos irritantes dos apoiantes dum homem "sempre defendeu os interesses do país". Apesar disso, senti uma leve pena dele; não porque perdeu (eu sei, tenho esse fraco por todos os que perdem qualquer coisa) mas pela persuasão do seu discurso...
Na noite de balanço eleitoral seguiu-se o arengo do novo líder, notoriamente mais magro do que antes; algo me fez também sentir algum incómodo. Seria a certeza comum de que se está a meter num covil de onde ninguém sai impune? Ou seria apenas o fato azul, de fraco corte e mal passado?
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