28 maio 2011

dia zen...


Seco-me energicamente para colmatar o risco de constipação - nunca tinha apanhado uma chuvada deste calibre; devo-a à visita ao Tomilho no hotel para cães onde se encontra.
A manhã tinha sido Zen, literalmente.
Havia dias que o meu telefone assinalava um número longo e desconhecido que apenas hoje se identificou. Havia anos, uns vinte, que não ouvia aquela voz. Por cerca de hora e meia ouvi a voz queixar-se da vida que tem levado; dos maus tratos do marido, afectado pela guerra no ultramar; da indiferença do filho que não pára numa mulher só; da esperança que tinha nele e que transfere agora para o neto. Contou-me que se lembra do tempo em que eu lhe pedia para me levar a ver os cabões na Rua Direita e lhe apontava a bandeira pocuesa**. Ela gostava de me esconder alguns brinquedos barulhentos, principalmente as minhas conetas***...
Num momento, tão longo como o que dura pegar no telefone e atender, todas as minhas intenções resvalaram como se levadas por uma corrente forte. Com sorte, consigo desligar a tempo do meu leve jantar.
Tem sido assim todos os fins de semana e estão quese a ser assim os dias úteis. Úteis?!
Queixam-se algumas amigas de que não lhes dou atenção. Queixo-me eu que não consigo dar atenção aos amigos. Desculpem. Volto já já.

*pavões
** portuguesa
***cornetas

25 maio 2011

ã?!


Recentemente saltou para a ribalta o triste nome de "strauss-kahn"; sempre que um amigo diz esse nome não posso deixar de perguntar: "kant?". Isto lembrou-me outros factos que expõem a dureza de ouvido...
O senhor António abordou-me sem delongas e diz-me: "o meu aramezinho?" - o mesmo amigo fez um ar espantado. Pensava que era um cumprimento "fofinho"... Credo!
E para acabar em beleza, um amigo do meu sobrinho acaba de me mostrar a minha idade: "Sim Donamarques...sou do alentejo mas moro aqui ao pè do seu sobrinho!:)
ok...questo saboto io vado a vedere la finale all'europe caffè..parla con giovanni forutunato che ti porta ..."

:(

22 maio 2011

resgate


Uma ordem de serviço levou MC num périplo por Macede, zona rural limítrofe da cidade grande, onde em tempos houve um afamado colégio. O caso passa-se num numa espécie de enclave, numa zona rural pertencente à cidade, um conjunto de quintas e terrenos mais ou menos baldios divididos por caminhos de difícil acesso onde passam preferencialmente cavalos, jipes e moto4. MC teve dificuldade em repetir o percurso num vulgar automóvel de passageiros; as encruzilhadas sem sinalização tornaram o percurso ainda mais tortuoso. Acompanhei-a porque a situação era delicada e eu era portanto, a pessoa certa; eu, que nem fugir posso se vier a polícia ou o dono do terreno de caçadeira em punho.
Pelo caminho até Macede, MC contou-me alguns episódios avulso da sua vida mas sempre sem pronunciar os éles; faua como se eues não existissem. Tau como eu, no seu mundo os animais também vivem e e têm as nossas dores - eram eues que aui nos uevavam.
Num terreno, com vedação e arame farpado, habitavam quatro bichos: um cão preso a uma casota, uma burra muito prenhe, uma cabra presa a uma árvore por uma pata e uma galinha. O terreno era fértil em matos e ervas, próprio para alimentar a burra, a galinha e a cabra. O cão, de porte quase grande, não tinha água, estava pelo e osso e tinha um qualquer mal de pele.
Ninguém trata do terreno, nem dos bichos nem se via vivalma.
MC estava munida de um escadote e outros acessórios úteis para pular a cerca. Saltou: soltou a cabra, deu de comer ao cão sôfrego e à burra.
Foi por isso estranho quando três cavaleiros se abeiraram de mim perguntando quando a burra pariria; confessámos ao que íamos - o mais novo ajudou-nos, pulando também. O cão foi resgatado e os outros gozam de liberdade para comer, pelo menos.
O que fizemos é punível aos olhos da lei. Não me detenho em pormenores não vá o diabo tecê-las. Se as tecer, pelo menos um daqueles seres indefesos já está longe das garras do outro ser desprezível que é o dono daquele terreno.
E é por isto que um dia assim basta para sentir a alegria de fazer o bem, mesmo que o bem contenha nuances perigosas e reprováveis; o prazer é redobrado por ser a um domingo, dia em que a maior parte das pessoas nada fez, nem o bem nem o mal.

18 maio 2011

orta a porta


Faz para aí dois anos que não via Leonor. Visitei-a hoje na mesma casa que sempre lhe conheci, ainda com o seu caniche branco, hoje acinzentado de sujo, o Snoopy, e os seus lábios pintados de vermelho ainda muito vivo. Já passou dos setenta mas parece ter menos dez; garante-me que é de se ter poupado aos filhos e a homem estabelecido lá em casa. Sou levada a acreditar quando me apresenta as provas.
Abriu a gelosia, como a própria lhe chama e mostrou-me um franco sorriso; ficou contente por me ver, espetou-me dois valentes beijos e um abraço apertado que transbordava a sinceridade. Mostrou-me com orgulho a transformação que fizera na casa após a senhoria lhe pagar as obras: tinha deitado fora tudo o que não prestava e de que não fazia uso; lavara um por um cada objecto exposto nos aparadores brilhantes.
Questionei-me acerca do uso e essência desses objectos - olhando à minha volta parecia que tinha salvado as coisas erradas...
Sentámo-nos na cozinha recém transformada e recheada do mais refinado kitsch. Em cima do fogão, da banca, da mesa, do frigorífico, paninhos azuis e amarelos encimados por um objecto de loiça; um porco, um galo, um cozinheiro, um farfalhudo ramo de flores vermelhas... No esquentador meia dúzia de ímanes coloridos em forma de fruto. Potes de diversos géneros, cores e tamanhos; relógios de parede e quadros forravam as paredes sem qualquer critério. Na sala, o menino da lágrima ocupava a parede de maior destaque.

Na visita que durou uma hora terei dito umas dez palavras e um ou outro grunhido. A senhora contou com todos os pormenores a sua péssima relação com a vizinha de cima, cujas falas imitava numa voz esganiçada, não poupando nas palavras e nos palavrões que a outra diz à menor contradição.
Como se se tivesse lembrado de uma coisa importante, contou-me uma grande novidade: a Promotora passou a ter bailes aos domingos à tarde e não perco um!
Tinha-me esquecido deste mundo; no meu dia a dia não me recordo que existem pessoas com vidas tão simples, cujo objectivo é ter uma casa caiada, arrumada e limpinha, o cão asseado, tosquiado e feliz com as suas seis camas espalhadas pelos compartimentos; uma boa relação com os vizinhos que ainda chegam a casa podres de bêbados; que comunicam uns com outros berrando às janelas; que ficam com a chave as suas casas para prevenir problemas; que aguardam a chegada do autocarro recém inventado pela junta de freguesia para os levar ao posto. De regresso compram o pão e aguardam ansiosamente pelo dia em que sai o totoloto...

16 maio 2011

14 maio 2011

pções


O meu mundo é feito de animais e pessoas sendo que cada vez estão mais presentes os primeiros. São seres perfeitos - não cobram pelo que dão; não são ingratos; felicitam-se pela presença humana; entregam-se, confiam.
Em troca, a maior parte das sociedades maltratam e desrespeitam animais e natureza.
É preciso dar-lhes voz, diz o slogan que apoio incondicionalmente. Estou farta dos outros animais, aqueles que afundaram o país e que me sugam até aos cabelos.

10 maio 2011