dama do pé-de-cabraJoyce entrou no quarto recostada na sua cama azul carregada por lacaios de farda branca. Imóvel, segurava uma caixa azul e branca que recomendavam manter sempre o líquido abaixo de um determinado nível.
Tinha um ar imponente e feições delicadas; os olhos verdes combinavam com a pele escura na perfeição. O cabelo, em poupo, era contido num lenço lilás atado à cabeça. O tom em que dirigiu poucas palavras aos lacaios era rude e denotava irritação. Dispensou, expedita, ajuda e pediu que lhe ligassem a televisão.

Bebeu um ice-tea de litro e comeu qualquer coisa contida num saco de plástico barulhento.
Para além de suspirar, manteve a pose até à hora de jantar.
À noite, seguiu com atenção as novelas e os concursos pirosos faziam-na soltar algumas gargalhadas. Parecia de poucas palavras mas perguntou se o som estava alto demais, preocupou-se.
No dia seguinte dispensou ajuda para tomar banho e perfumou-se com um intenso cheiro a baunilha. Ninguém lhe telefonava, não telefonava a ninguém. Depois do almoço veio o namorado, de capacete numa mão e saco com frutas na outra, sorridente. Namoraram protegidos pelo cortinado azul até serem repreendidos por uma vigilante.
Foi nos últimos dias que Joyce se revelou: lamentou-se da mãe que tem, que não a visitava, não lhe levava roupas, não se preocupava com a sua saúde. Pediu emprestado o telemóvel porque ninguém a vinha ver. E nessa mesma tarde, os amigos apareceram:
Entraram coleantes, como de dançassem, com movimentos que pareciam fazer parte do corpo, como se de um membro se tratasse. Cumprimentaram com gestos afáveis, parecendo que conheciam toda a gente havia anos.
Joyce recebia chamadas no meu telemóvel; a mais recente dizia que estava alguém lá em baixo a querer visitá-la (só agora a notícia do seu internamento se espalhara). Num ápice, os três amigos escurinhos desapareceram porta fora. Um levara três facadas e não mexia uma mão; outro fora vítima de um tiroteio no bairro, contou ela na sua retirada.
Entretanto investe um furacão pela porta dentro: Sara, a amiga de que me tinha falado. Vem de braço ao peito porque se envolvera numa briga na véspera, com o senhorio. Transpirava porque correra os sete andares à procura de Joyce; rodopiava para exemplificar a briga - conseguira acorrer a casa buscar uma faca para vingar-se e conseguira atingir o senhorio; jurava que aquilo não ficava assim. E que tudo tinha começado quando regressava a casa com o Pedrinho, o seu filho de três anos, de boleia com uma amiga que por sua vez andara à porrada com uma amiga que andou a dizer mal nas suas costas. Que aquilo também não ficaria assim. Nenhuma briga das inúmeras que começou a contar ficaria assim.
Multiplicava-se em histórias encadeadas, complicadas, relatos de lutas entre vizinhos com consequências físicas graves. Joyce mandava falar mais baixo; o telemóvel tocava e ela vociferava contra ele. Mandava-o calar até que atendeu. Estava lá em baixo alguém... Saiu de supetão.
Joyce ficou a contar o inexplicável acerca da sua vida, dos amigos, dos filhos que tem com cada pai. Agora já só pensava em sair dali, ver-se livre da caixinha do nível, mandou chamar o médico e obrigou-o a tirar-lhe o dreno. Avisada do perigo que corria se continuasse a fumar depois daquele edema pulmonar. Discutiram ambos, mas ela obteve alta.
A mãe apareceu com quem visita um familiar distante e de quem sequer distância, reprimindo-a dos seus actos; vinha para lhe trazer a enorme mala com documentos. Enquanto se vestia e se envolvia em baunilha, maldizia o hospital e os dias que ali passara. Por mim, apesar do risco que corri debaixo dum certo automóvel e nas mãos dos médicos, senti-me naquele dia mais vulnerável que nunca.
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