29 maio 2008

cor

xplosão colorida*

"(...) Ao princípio, pareceu dar preferência ao género Chevrolet, começando por um descapotável creme-campus, passando para um pequeno sedan azul-horizonte e, a partir daí, "desbotando" para cinzento-rebentação e cinzento-madeira-flutuante. Depois optou por outras marcas e passou por um arco-íris claro e baço de tonalidades, até que um dia dei comigo a tentar avir-me com subtil distinção entre o nosso próprio Melmoth azul-sonho e o Oldsmobile azul-pluma que ele alugara. Os cinzentos continuaram, no entanto a ser o seu criptocromismo favorito e, em angustiados pesadelos, eu tentei em vão distinguir convenientemente fantasmas como o cinzento-concha do Chrysler, o cinzento-claro do Chevrolet, o cinzento-francês do Dodge..."
in Lolita, Vladimir Nabokov


* Talvez tenha direitos de autor, mas parto do princípio de que o autor não se ofende...

the best...

kiko

28 maio 2008

arrepiante

rrepiantemente orgânico

Pode provocar náuseas, uma qualquer espécie de enjôo, mas não lhe resisto.

serenata à chuva

erenata à chuva

Este é o Stalone, um cão minorca que apareceu à minha porta. Para ser mais precisa: postou-se à porta da Concha, que é uma grand danois enorme e no cio. O cãozinho ignora todas as regras que dizem respeito às dimensões indicadas para acasalar e é indiferente a todos os preconceitos que inibem um qualquer rafeiro de fazer a corte a uma nobre cadela. Para além das serenatas que Stalone dedica à sua Conchita, está a tornar-se inconveniente: passa as noites rua acima, rua a baixo, a ladrar. Percebe-se, portanto, a origem do recém atribuído nome de baptismo? Mas o pior é que a sua bigodaça branca me fez simpatizar com este rafeirote...

27 maio 2008

mania da reciclagem

ania da reciclagem

Insiro-me no grupo daqueles a quem a falta da chave do carro deixa em desespero. A manifestação de professores de março passado teve como primeira consequência o desaparecimento do segundo exemplar dessa chave, que não deu acordo de si até hoje. Tenho para mim que um vizinho a terá levado no bolso por engano (e eu que nunca pensei que um vizinho fosse capaz de uma coisa dessas!). Um destes dias, dei conta da ausência da outra única chave. E agora, como é que me desloco?, pensava aflita. O único autocarro que passa aqui vai para longe, desviado do meu caminho. Fazendo rewind do meu dia, descobri rapidamente que havia apenas um sítio onde a desgraçada poderia estar: no ecoponto, no contentor amarelo. As minhas preocupações ambientais não vão tão longe, mas deitei-a lá dentro. Peguei num banquinho e numa tenaz e aí vou eu, de arma em punho, à pesca da minha rica chavinha. E lá estava ela, a um cantinho, conspurcada pelo cheiro nauseabundo das embalagens. Já passou o seu mau bocado e vou prometo dar-lhe descanso, portanto, vou ter que cloná-la.

contrastes


26 maio 2008

aos meus vizinhos

os meus vizinhos

Amanhã comemora-se o dia do vizinho, coisa que me pareceu muito estranha quando a ouvi pela primeira vez. Pensando melhor no conceito de vizinho como a pessoa que, não morando na nossa casa, está muito pertinho de nós, sou levada a pensar que os meus vizinhos já mereciam ter aqui um cantinho apenas a eles dedicado. Posso afirmar que vizinhos como os que eu tenho já não haverá muitos; eles dirão o mesmo de mim, que sou vizinha deles.

Gosto muito dos meus vizinhos quando me fazem olhar para eles a empanturrarem-se de caracóis enquanto me entretenho com umas fatias de pão com manteiga; gosto quando me chamam para juntar o meu almoço ao deles; gosto de acompanhá-lo com uma sangria fresquinha; gosto quando me perguntam porque é que abri a janela tão tarde, se estarei doente; gosto quando me pedem para lhe olhar pela casa porque vão de férias; gosto quando abrem a porta ao homem que conta a luz quando não estou; gosto de chegar à porta da cozinha e ver, pendurado no portão, o saco do Jumbo que tem o jornal; gosto que tratem do cão com esmero quando vou de férias; gosto de ter o meu lugar para o carro sempre à porta de casa; gosto que me roubem limões para o martini do fim do dia; gosto de saber que se preocupam quando dão pelas minhas olheiras; gosto de contar com as batatinhas deles quando me esqueço de as comprar; gosto que cheguem à varanda a perguntar se também faltou a luz; gosto das longas conversas no terraço nos serões quentes de verão; gosto de apanhar com um jorro de água atrevido quando regam o jardim. Gosto saber que, mesmo quando não estou em casa, alguém olha pelas minhas coisas como se fossem suas.

24 maio 2008

euro-visão

uro - visão
Pode parecer que vou escrever sobre o preço da gasolina ou fazer um qualquer prognóstico sobre o estado da europa, não, longe disso. É que eu estava convencida de que a estopada do festival da eurovisão era coisa de tempos passados, tal como a primavera! Afinal, hoje olho para a televisão e depois de apanhar um susto, viajei no tempo: pareceu-me que os anos não passaram desde uma época em que eu própria fiz parte de um determinado júri, precisamente do Festival RTP da Canção, mas nos remotos anos oitenta. Não tive culpa nenhuma que tivesse ganho a Guinot (o que isso me custou, na ocasião). Há coisas que não mudam.

lisbonlovers

22 maio 2008

21 maio 2008

olorful days

Eu ainda sou daqueles que se lembram do tempo em que a primavera acontecia invariavelmente na primavera. Felizmente, alguma primavera ainda existe.
E sabem porque é que esta é a minha época favorita?
Eu digo porquê:


e mais porquê:



18 maio 2008

crochet

isitas de domingo

Já o terei referido antes, mas repito, sou viciada em jornais e revistas. Mesmo quando o bom senso me diz que não vale a pena comprar porque não vou ter tempo de ler, não gosto de passar sem saber o que dizem as gordas. Mas porque há muitas fases em que realmente o tempo para ler é escasso, acumulo algumas leituras de uma semana para a outra, não mais do que isso. Não vou lê-las de ponta a ponta, vou apenas verificar as páginas de que gosto, como por exemplo, as crónicas do RAP, a secção das artes e um ou outro artigo que me espicace a curiosidade. Hoje decidi livrar-me das desta semana e descobri umas exposições curiosas (que não irei visitar) mas que podem ser visitadas virtualmente.
No caminho, passei por esta imagem - que apresenta a instalação Hyperbolic Crochet Coral Reef, no Southbank Centre, em Londres. Remete para um conceito interessante, que é a presença do artesanato (tal como o faziam as nossas avós) enquanto revelador de realidades. Esta peça de crochet serve de base à discussão de assuntos sérios e tão actuais como a destruição das barreiras de corais e o aquecimento global.
O retorcido do crochet levou-me a Joana Vasconcelos (que com um colar de bóias apenso à Torre de Belém conseguiu, um dia destes, lugar nos telejornais). Gosto do modo como brinca com os materiais comuns e os utiliza nas suas instalações e principalmente, as técnicas artesanais que estão presentes em tudo o que faz - seja no gigantesco conjunto de tachos ou do crochet nesta cabeça de touro. Sejam quais forem os interesses que a movam, é uma mulher de peso.







E já agora, queria não perder: Vinil-Gravações e capas de discos de artista, Forum Fantástico 2008

15 maio 2008

i don't give a shit















Aposto que há quem se surpreenda com este meu ar (suavemente, é certo!) irritado.
Mas é que há coisas que vêm e que vão mas têm a capacidade exasperante de nunca sair do mesmo sítio. Há outras que, sendo ninharias, conseguem reduzir a pó o que até então o dia tinha trazido de bom.

14 maio 2008

os meus passarinhos voaram

s meus passarinhos voaram!

dizia-me dona Lurdes, excitada com a descoberta do ninho vazio e atribuindo-me a propriedade da família voadora apenas pelo facto de os ter fotografado há dias.
- Ai eu gostava tanto que os visse, todos pretinhos, muito peludinhos, já mal cabiam no ninho. É a primeira coisa que faço quando chego, é ver os passarinhos e hoje só andava aí a mãe.
- Estarão por perto, então, retorqui afastando-me, congeminando mil e um afazeres na cabeça.
- Mas olhe, chegue só aqui acima para ver... Não consegui resistir à emoção e ao apelo da senhora, que transpareceu alegria pela minha demonstração de interesse. Bastou subir uns degraus e espreitar para baixo. E era verdade, os melros tinham voado.
Minutos mais tarde e de igual modo, não consegui resistir a outro apelo, este mais amargurado. Alterou todos os planos que tinha feito para o dia, mas, apesar do cansaço que se instala a olhos vistos, satisfaz-me a satisfação de ter satisfeito alguém.
E os melritos, espero que voem para bom céu.

13 maio 2008

pata vermelha

ma boa ideia

Quem me conhece conhece o meu fraquinho pelos cães, principalmente pelos que tem pouca sorte na vida. Graças a eles, descobri uma comunidade anónima de pessoas com interesses iguais. Não sei quem são, apenas que partilhamos esse gosto (e é curioso chegarmos posteriormente a descobrir que há mais do que apenas isso em comum). Descobri agora uma iniciativa muito interessante que vou adoptar e que me apetece divulgar. Na verdade, sempre me interroguei acerca do destino a dar às pilhas de medicamentos com que absurdamente, os médicos decidem atafulhar-nos. Sejamos coerentes: podemos ver-nos livres deles mas fazer bem a meia dúzia de bichinhos.
Dog Barking at the Moon, Juan Miró, 1926

carilar

arrilar



Andamos dias a fio imersos em trabalho, preocupações e chatices; o mundo transforma-se num caos e de repente, por obra de uma amena (ou nem por isso) cavaqueira à volta de um prato e de um copo, acima de tudo do copo, tudo se transforma, muda de cor. Seja por simpatia, porque a resolução de problemas carece de tempo ou simplesmente porque tem que ser assim, aquilo que era difícil parece fácil. E as coisas voltam a carrilar.

12 maio 2008

pouzio

ousio

de pousio, era o que eu gostava de dizer do estado em que deixei este espaço. Pousio consiste em deixar a terra descansar suspendendo a cultura por algum tempo; como consequência, a produção seguinte adivinha-se de melhor qualidade.
Se o que aí vem é bom, não sei e não me preocupa. O que sei é que há momentos tramados, em que sentimos os ventos rápidos do furacão levarem-nos e nem nos dão espaço para respirar. Aí está uma coisa que hoje faço com dificuldade, graças aos meus arqui-inimigos pólens. Irra, já bastava o resto.
lápis de cor, fevereiro, 2008

06 maio 2008

merlo

uando
uma das boas prendas de anos é oferecida por um melro fotogénico, que deixou transparecer um momento de fraqueza...

04 maio 2008

o zé do boné

zé do boné

Quando tirei a carta, nos longínquos anos oitenta, já havia condutores espertos, muito mais espertos do que todos os outros. Distinguiam-se por conduzirem não de capacete, como seria necessário, mas de chapéu ou de boina. Tanto um como o outro acessório, representava sinal de perigo. Eram, na maioria, velhotes e só olhavam em frente; a estrada era toda deles. Não viam cruzamentos, não respeitavam prioridades. O senhor Severo avisava-me do perigo, mandava-me travar imediatamente. Eu habituei-me a isso e a respeitá-los não pelos bons exemplos que davam, mas pelo perigo que representavam.

Passados anos, verifico que eles andam aí. Apercebo-me de novo do perigo e vou pisando o travão quando vislumbro os modernos zés do boné - jovens na sua maior parte morenos, com as cabeças cobertas com kangol ou coisa parecida, recostados em assentos rebaixados. Conduzem carros igualmente rebaixados, carros reembrulhados pelo tunning, com um potentíssimo som que os impede de ouvir buzinas ou sequer pensar que existem. A estrada também é só deles.

a lei da rolha

lei da rolha

Eu cá preocupo-me com estas coisas e já tenho uma colecção de rolhas. Agrada-me o cheiro da gavetaa onde as guardo; tem qualquer um aroma a vinho que acorda memórias da adega dos meus avós.