onvergências formais - 129 abril 2009
lue ray cof-coffeeNo café da minha rua (known by the midget street), serve-se um café do outro
27 abril 2009
uidai-vos!Protegei as vossas fossas nasais, limpai as vossas pocilgas, cuidai da alimentação; não apanheis resfriados, não useis objectos usados por outros suínos. Proibi-vos a vós mesmos de cantar La Cucaracha mesmo que tenhais vontade; não useis chapéus mexicanos mesmo que o sol vos queime, porque se vos constipardes, o mundo pode acabar.
24 abril 2009
arafusos desapertadosNão deve haver tanto desaparafusado por metro quadrado como no lugar onde moro. Aviso os incautos do perigo que é circular distraído pelo centro da Parede. Não falo de maltrapilhos nem pedintes. Falo de pessoas bem arreadas, com aspecto à primeira vista normal, mas que denunciam loucura quanto mais não seja quando começam a falar.
Estava uma senhora a tomar o seu cafezinho em pé quando se aproxima um rapaz com nítida mania das limpezas. Passava a mão repetidamente no vidro do balcão até não ficar uma migalhinha mas apenas a gordura das suas delicadas mãos. Pediu um café e virou-se para a senhora: "Já não a via há muito tempo", "Ah...", "Já pr'aí desde que dava os marretas na televisão... já vão pr'aí uns vinte anos ou mais!... lembra-se do sapo Cocas?".
Outra coisa que pode acontecer é levar um encontrarão por outro género de tolinho que dispara a correr sem avisar. Conheço, pelo menos dois: uma velhinha, de sapatilhas, com cabelo grisalho e de braço eternamente ao peito, mas que corre desenfreadamente sem destino e sem mais nem menos; um rapaz muito vaidoso que se olha nos espelhos das lojas e que habitualmente usa uns grandes óculos escuros apenas com uma lente.
E há uma senhora muito elegante mas com poucos dentes, com barrete de lã faça chuva ou faça sol, que guarda um jornal atrás das caixas de electricidade e que agacha para arrancar pedras da calçada.
Estranho passatempo, não o de recolher pedras, mas este de apreciar maluquinhos, heim?
22 abril 2009
18 abril 2009
ócegas de féAna tinha pressa, corria para o metro. As escadas multiplicavam-se. Arrependeu-se, retrocedeu, cansada. À beira do passeio, acenava para fazer parar um táxi. Um homem gordo e anafado, chamou-a:
-Irmã! Irmã! Vai para o Cais do Sodré? Podia dar-me boleia...
Hesitou mas prudentemente disse-lhe que não passava lá.
Enquanto entrava no carro, pensou melhor. Viu-lhe no virado do casaco um pin, uma cruz, qualquer coisa que achou de cariz religioso. Afinal, era um padre, podia excomungá-la, podia correr-lhe o dia mal... Correu atrás dele.
-Venha, senhor padre, então venha.
O homem desfez-se em amabilidades e tomou o lugar da frente.
Ana, no banco de trás, torcia as mãos, esperando que a viagem corresse rápida. O padre resmungava com os anúncios que expunham uma semi-nua Cláudia Vieira.
-Isto é uma podridão. E aquela mulher é uma devassa. Tenho que rezar por ela. Credo!
-Mas que sabe bem, sabe, senhor padre. Alegram-nos a condução..., dizia o taxista.
-O senhor trabalha muito. Vou rezar por si, que está mesmo a precisar. Se logo sentir um arrepiozinho nas costas, não se preocupe, é sinal de que a minha oração faz efeito.
O taxista era um homem crente, a ver pelo rosário pendurado no retrovisor e o são Cristóvão colado no tablier.
-A irmã hoje fez uma boa acção. E podia dar-me qualquer coisinha para o meu almoço? Também vou rezar por si.
-E como é que eu sei que reza por mim? Até me dava jeito que a vida começasse a correr melhor.
-Olhe, mais logo, quando começar a sentir um formigueiro pelas costas acima, é porque a minha oração está a fazer efeito...
11 abril 2009
10 abril 2009
pontamentos pascais - 2
Um rapaz com bom ar mas com trajes estranhos, calças de ganga descidas e blusão de xadrês com carapuço, que reconheci de já ter visto a pedir, aproximou-se de mim:
- Boa noite. Queria perguntar-lhe uma coisa...
- Boa noite. Não vê que não trago carteira?
- Oh, nem sempre que me aproximo das pessoas é para pedir. Eu não quero pedir, só queria perguntar-lhe uma coisa.
- ...
- Esta procissão é porquê?
- Esta procissão é porquê?
- É do Enterro, acho que se chama assim...
- Ah! Ó Zé! É do Enterro! (gritava para um rapaz que fazia piruetas com uma bicicleta). Está a ver? Eu ando aqui, não ando a pedir, ando a passear e olhe que eu sou boa pessoa.
- Lá que ter ar disso tem, tem cara de bom rapaz. Já não é a primeira vez que nos cruzamos.
- E acredite que sim, que Deus me conserve assim. Então boa noite, sim? Tenha uma boa Páscoa.
- Boa noite...
09 abril 2009
pontamentos pascais - 1
Tempo de páscoa é tempo de padrinhos se lembrarem que têm afilhados e eu tenho oficialmente três. Quando pensei escrever umas palavritas aos meus afilhados, sinal de que me lembrei que os tenho e minorando o problema de os não ter ao pé, fixei-me num repetitivo registo piroso, apesar dos esforços para o afastar. Isto é tão verdade quanto a confissão que agora faço: vinham-me à lembrança apenas estas letras e a respectiva música - to all the girls I've loved before, who travelled in and out my door, I'm glad they came along, I dedicate this song, to all the girls I've loved before. Numa penada, o Júlio resolveu os seus inúmeros problemas, aparentemente tantos quantas mulheres lhe passaram pelo bico. Afastado finalmente, o refrão esvaziou-me a mente de tal modo que não sei o que dizer a cada um dos três.
Como toda a gente sabe (era assim que o meu afilhado F começava todas as suas histórias), os afilhados não se escolhem - os escolhidos são os padrinhos e as mardinhas (tal como F dizia em pequeno). Adivinho os motivos pelos quais me ofereceram a tripla incumbência, mas não sei se tenho cumprido o papel que me estava destinado. Como não estou perto, os folares vão esperar porque a mim, e a dois deles também, a vida mudou.
Se o F, o único menor, foi forçado a mudar de vida, PJ mudou por opção. PJ é um duplo afilhado - não um duplo de afilhado, que não planeei cenas perigosas para esta aventura, mas afilhado de baptismo e de casamento, já que uma desgraça nunca vem só. Germânico de nascimento mas filho de pais beirões, surpreendeu-me recentemente porque fez uma mudança radical no rumo da sua vida. Trocou um emprego corrediço, na medida em que andava sempre na estrada, por uma actividade musical: anima festas. Transformou-se portanto, num afilhado dos sete instrumentos e uma voz, a quem ainda não ouvi cantar.
Este triângulo escaleno não fica completo sem o vértice T, transalpino de nascença, o único do meu sangue e curiosamente o que está mais longe. T já tem idade bastante para que não lhe dê um livrinho que facilite o português e as amêndoas (da Provir...) dificilmente chegariam ao destino - a falha tectónica poderia engoli-las. Resta-me, portanto, registar publicamente, o meu apreço janota por ele.
08 abril 2009
07 abril 2009
05 abril 2009
m sábado insólitoHá dias extraordinários em relação aos quais devemos ter atenções redobradas. Dias repletos de más opções. Neste caso, os sinais começaram a revelar-se bem cedo, por horas do pequeno-almoço, com um monólogo singular.
O que é que leva uma velhinha a entrar no café, cumprimentar as pessoas sentadas com um bom dia personalizado, dirigir-se ao balcão e pedir: "Daqui a mais ou menos meia hora dá-me um cafezinho? Eu vou-me sentar ali". Fiquei a pensar nisto.
Como estava a pensar naquilo, distraí-me e jurei ao senhor bacano que já lhe tinha pago o que acabara de comer, quando percebei que o troco que tinha era afinal, o do jornal. Retirei-me, envergonhada, pensando que iria ter um dia pacato.
O erro seguinte foi ter optado pelo sítio para almoçar. Churrasqueira quer dizer famílias barulhentas com crianças aos berros à volta de travessas com carne e batatas, mas levei tempo a realizar isso...
Depois começaram a chover pedidos mudos, na forma de sms. Resisti-lhes enquanto pude, isto é, até perceber que se não fosse hoje, acabaria por ceder amanhã. Quando dei por mim, senti-me no sítio mais estúpido do mundo: numa tarde de sábado, imbecilmente metida no ikea, rodeada por centenas de imbecis que me atrapalhavam os movimentos. Com o objectivo definido previamente, conseguimos o impossível, que foi realizar a compra, pagá-la, metê-la no carro e voar para longe num curto espaço de tempo.
Estava longe de saber que este lugar se converteu num local de romaria de famílias que não sabem onde ocupar o tempo. Povoam a loja e atafulham de carros as estradas de acesso; impedem os outros de andar mas fazem exactamente aquilo que se lhes sugere de modo tão eficaz: seg
uem as setas, deslocam-se na loja exactamente como lhes mandam e devagar, escolhem o que se pretende que escolham fazendo-as acreditar que é tudo bom e bonito. Como se não bastasse, acartam as coisas até às caixas e pagam. Não pagam muito, é verdade, mas é o preço ajustado à qualidade do produto. Atenção: eu própria vou lá comprar, consciente de que isto é tudo um embuste.O dia acabou com um jantar insólito, cometido por um amigo de longa data, ele próprio, tão insólito como alguns actos que pratica. Ainda estou para descobrir onde está o parafuso que conseguiu tirar da parede quando apenas queria ver o meu funil Alessi...
03 abril 2009
02 abril 2009
01 abril 2009
ão é para agradecer,mas este é um endereço que recomendo.

Repare-se no que é possível para além de ver livros raros: ver originais, ampliar pormenores, ouvir excertos musicais, deliciar-se...
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