25 fevereiro 2009

uas ou mais confusões dos diabos

Os livros ensacados e acartados numa tarde pelas laboriosas mãos de CN e PV que ainda se afadigaram a preparar o jantar de inauguração para despachar sobre uma mesa preclitante. E a hora agá chegou - era preciso esvaziar aquela que foi a minha casa por alguns meses. Personagem reeincidente nas minhas peças, entra em cena Senhor Basílio, homem grande com pose de cóboi, entra por ali dentro balançando a cabeça enquanto olha em redor, scanando o espaço (parece que lhe vislumbro uma luz verde no olhar), braços ligeiramente flectidos como quem vai deitar a mão ao coldre a qualquer momento. Ponho tudo nessas mesmas mãos, que fizesse como entendesse e ele entendeu que se faria tudo numa noite só. Dito e feito, ele e os seus ajudantes, tão amestrados quanto mudos, transportaram tudo em três viagens. Querendo ser tão prestáveis, aconchegavam-se na carrinha para que eu coubesse entre eles; escusei-me e com duas ou três desculpas consegui safar-me.

Mas a cena não estava completa, porque faltavam outros personagens que, embora tendo sido convidados, não deveriam ter entrado em cena naquele momento. Um deles era o electricista com ar de entendido, mas que, na verdade, de entendido só tinha o ar - atendi-o quase às escuras, no meio de móveis arrastados, ladrar de cães, toques de telefone... E a HM carregada de víveres providenciais, para dois dias. E o técnico do gás, aliás, o segundo técnico, perito em fugas de gás e de informação: o homem tentava convencer-me de que nos conhecíamos de algum lado. Irritou-me a conversa e o seu estalar de dedos, mas mais ainda com o que me fez correr atrás de um papel que devia ter assinado e não assinou. Foi o gás, aliás, que me fez correr mais do que todas as escadas que o prédio tem. Num contínuo vaivém de papeis que só apareciam se tivesse outro para dar, consegui final e aparentemente, resolver esta questão que me angustiava. Descobri que as redes mafiosas nesta área são prolíferas e bem organizadas.
Mas confusa confusa foi a última manhã desta saga: viver numa casa sem água quente e tomar banho noutra onde mandei cortar a água num horário muito bem definido. Preparava-me para o fazer mas oiço um carro estranho: iam cortar a água. Pedinchei dez minutos de clemência, que me foram concedidos. Fechei definitivamente aquela porta e almocei calmamente; no meu regresso, tinha uma espécie de reclamação no vidro do carro e pensei: "decididamente, não voltará a acontecer". Prevenindo um jantar ligeiro, dirigi-me ao pronto-a-comer e comprei sopa. Tinha meia hora, dirigi-me à pastelaria e sentei-me a tomar café... poisei a sopa na cadeira, discretamente. Porém, ao levantar, tombei o saco... a sopa espalhou-se pelo chão..., tentei impedir que escorresse, mas queimava.

Com o derrame da sopa aproximo-me do fim desta saga. Os próximos dias prometem ainda muito trabalho, mas pelo menos, tudo acontece num lugar só.
ma confusão dos diabos


A minha casa tem sido nos últimos dias, ponto de muitos encontros. Nada demais, parece. O estranho da coisa é que os muitos encontros sucedem todos ao mesmo tempo. Isto é, e como exemplo: marco para uma manhã a instalação do gás e para a tarde a entrega da máquina de lavar roupa. Estando o técnico de gás em cima do escadote a furar paredes, aproveito para sair por minutos para acartar meia duzia de caixotes; quando estou quinhentos metros afastada de casa, ligam-me os homens da entrega da máquina: estão à minha porta. Corro de volta. Sentada na escada, aguardando-me, a vendedora da casa que precisa de falar comigo. Subimos; a porta escancarada e eu a pensar que tinha perdido o meu animal de oito patas. Nada disso, tudo calmo na maior confusão. Todos os intervenientes deste encontro (ao qual se sucederam até ao momento e em quatro dias uns cinco ou seis iguaizinhos) estavam ali para falar comigo, exigir a minha atenção, pedir-me decisões, a mim, que sou perita nisso.
O brasileiro do gás, de sorriso rasgado, faz uma pausa antes que os homens o derrubem do escadote, mortinhos que estavam por encaixar a máquina no sítio. Não cabia, era preciso desatarraxar dois parafusos, o que deixaram para eu fazer, porque estavam cheios de pressa. Máquina instalada, brasileiro no escadote, Dona Tété circula pela casa dando-me sugestões acerca de como impedir que o vento entre pelas frestas das portas. Cansa-me e repete vezes sem fim para o rapaz: - Você é um anjo. Deus o abençõe.
Tocam a campaínha, a canzoada responde com latidos, duas caras muuuuito simpáticas encimadas por duas fartas carapinhas de cores berrantes, espreitam para dentro: CN e PV vêm dar uma mãozinha à confusão por uns instantes mas depressa se revelam uma ajuda preciosa.
(continua)

24 fevereiro 2009

meu animal de 8 patas
Passear dois cães pela trela não requer mais do que o domínio de uma técnica. Quando o cão é hiperactivo e a cadela é uma paz d'alma, o caso muda ligeiramente de figura. Cansa mais, requer pulso forte e voz de comando (esta última faz rir, não faz?). Oiço-o suspirar enquanto espera que ela aprecie demoradamente um montinho de ervas daninhas, borrifadas por um qualquer chichi de um qualquer vira-lata; lembrou-me o meu pai, quando reclamava do tempo que “as mulheres levam a ver as montras…”

23 fevereiro 2009

17 fevereiro 2009

pior do plano para um serão sossegado: descobrir que o plano se desfaz porque o teste sobre os planos ainda está por fazer.

15 fevereiro 2009

13 fevereiro 2009

raída pelo coração - IV
(a parte em que a vida proporciona experiências amargas)

Após a abstinência exigida pelo conveniente período de convalescença, Sissi recuperava. De volta à vida e à revolta que lhe faziam notar os narizes torcidos sempre que se ouvia o nome pequenino do pequeno Pêpê.
Começou por sentir tonturas quando se levantava e a mãe tentava mantê-la na caminha - parecia que, de algum modo, fazendo isso podia dar à filha algum do carinho de que ela tanta vez se queixara não ter. Mas discretamente, debaixo dos lençóis, Sissi tentava comunicar com ele, repetindo-lhe o seu amor, tentanto justificar a atitude tresloucada de havia dias.
Os primeiros momentos de lucidez foram preenchidos pelas atenções das amigas que se revezavam nas visitas e apoio na sua decisão de continuar a estranha inclinação. Diziam-lhe que fosse em frente, que o amor acabaria por vencer, mas Sissi perguntava-se se G e a mãe teriam alguma razão: rir-se-iam os outros ao vê-los juntos? Seria assim tão mau? Teriam pena dela por estar desgraçadamente apaixonada? Teriam compaixão? Veriam nela uma azarada na vida?
Depressa percebeu que apenas lhe restava guardar sigilo para manter aquele namoro e cada vez aumentava a certeza de que não abdicaria dele por nada do mundo. Compreendia agora que aquilo que fizera com risco da própria vida, em nada tinha alterado a opinião dos outros e também, mas principalmente, nada tinha acrescentado à altura do rapaz.

A vida corria e Sissi fazia anos, tal como as outras pessoas. Tal como às outras pessoas, também as suas amigas lhe organizaram um jantar surpresa; como em todas as histórias, a surpresa vem no fim e no fim de todos se sentarem à mesa, ele chegou, carregando um enorme ramo de tantas rosas quantas a idade dela. Sentou-se à frente dela, um pouco constrangido por ser a primeira vez que era apresentado a alguns dos convivas. Estava nervoso, ela estava nervosa, ria-se continuamente enquanto engolia o jantar. Mas ele tinha outra surpresa que trazia nas mãos, em cima de um prato e sob um guardanapo branco com xadrez azul: fizera-lhe um bolo de chocolate, o predilecto dela, carregadinho de velas. Esqueceu-se, no entanto, de um pormenor: o açúcar... À primeira garfada, cruzaram-se olhares, que se refugiaram nos pratos; ninguém teve coragem de expressar o comentário mais discreto. Surgiram os mais diversos pretextos para abandonar a mesa e o bolo. Pediu-se água para ajudar...
Sissi, firme na sua cruzada, foi a única que, insensível ao sentir das suas papilas gustativas, continuava alegremente devastando o bolo de chocolate mais amargo e seco de que havia memória.

08 fevereiro 2009

romos

Passar um bocadinho com um grupo de velhotes foi o que me aconteceu no sábado à noite. Queixo-me de falta de tempo, que não chego para as encomendas, mas não resisti: era um pedido da minha mãe. Começamos pelo jantar a três - eu, ela e uma amiga; mais nova que a minha mãe mas muito lenta para a sua velocidade. Conforme íamos caminhando, queixava-se do atraso que a amiga lhe fazia, do estorvo que era, de quão farta estava e ainda faltava um dia! Que
passava a vida a queixar-se das dores nos ossos e da sua tendência depressiva...
Onde é que eu ia? Ah, o jantar para jantar em meia hora porque a outra, com a sua lentidão, tinha feito a minha mãe atrasar-se.
Sopa. Comprimidos. A minha mãe tira quatro, a outra tira cinco que espalha na toalha.
- Também tomo este.
- Este é o Daflon. Também tomo.
- E este também, o Vastarel.
- E este cor-de rosa? Não conheço.
- Neurobion
- Ah, tomo isso em ampolas, dizem que é melhor.
Calamos e comemos para não se fazer tarde. Não consegui acabar de jantar, tinha contactos inadiáveis a fazer. Ficaram a pagar uma água e a discutir que a pagava. Desisti.
Acompanhei-as aos quartos para ajeitarem os penteados, mas em breve apareceu outra senhora abater à porta. Estavam toooodos à espera.
Descemos para a recepção, irritadas com os elevadores que quando são precisos para descer só sobem, que não obedecem nem quando se carrega nos botões incessantemente e quando chegam, vêem cheios.
A pressa é inimiga da perfeição e com tanta correria, uma terceira velhinha, ou nem tanto, não viu os degraus da escadaria e galgou quatro degraus até se estatelar de cabeça no mármore do hall de entrada. Rodeada de imediato por meia dúzia de pares de olhos e de tantas outras opiniões, manteve-se no chão até chegar a ambulância. O grupo só desmobilizou quando se abeirou da doente um hóspede especial, um padre.
- Esteja descansada que não lhe venho dar a extrema-unção, mas sempre posso fazer uma oraçãozinha para que fique bem.
Seguiu-se uma ida à revista, mofenta e deprimente no mofento e deprimente Parque Mayer.
As velhotas não gostaram nada da linguagem brejeira e escandalizaram-se com as ordinarices.
Têm razão, velhinhas, não é preciso exagerar.

03 fevereiro 2009

lgumas regras de etiqueta que convém lembrar

"É preciso ter cuidado com a mania dos discos e da telefonia. Pode ser agradável ouvir dois discos ou três bem escolhidos, mas não nos arrisquemos a incomodar os amigos que convidamos, impondo-lhes uma audição forçada de várias horas. Aliás, com o pick-up a trabalhar é impossível manter uma conversa. O mesmo se diga para a telefonia. E cuidado com os vizinhos! Não se deve tocar a telefonia a uma hora a que as outras pessoas já estejam deitadas com o regulador de volume no máximo." (A Arte das Boas Maneiras, 1967)