ola-se ao ouvido e aos olhos23 junho 2010
19 junho 2010
ali na pracetaViam-se mal a cor e a forma mas o automóvel, preto, estava carregadinho de pó embora coberto com um pano de algodão às flores. Deixei-o coberto mas meti-me nele, esgueirando-me para lugar do condutor, com alguém indefinido ao meu lado.
Estava estacionado numa praceta onde teria havido uma enorme explosão, com feridos e muito bombeiros em seu auxílio. Era de noite e chovera muito. Havia bidões espalhados pela praceta e no chão havia marcas de rodados de carros à mistura som largos riscos brancos - tudo isto lá estava antes da explosão.
O meu carro não queria arrancar e acusei o pedal que foi ganhando forma de gente e era alguém que estava no banco atrás de mim - um homem de olhos castanhos e cabelo ondulado. Para olhar para ele rodei o pescoço 180º no sentido vertical e fixei-o nos olhos; ele soltou uma sonora gargalhada trocista e recostou-se.
Arranquei a grande velocidade e contornei os grupos de polícias e pessoas em traje de dormir, ganhando velocidade descontroladamente. O carro ia perdendo peças, senti o volante a soltar-se e o travão estava frouxo; gritava acusando alguém sem forma nem nome que me tinha sabotado o carro pela segunda vez. Em roda livre, fazia peões e as pessoas corriam tão desesperadas quanto eu. Acordei com os meus próprios gritos alucinados.
13 junho 2010
u, animal de quatro patas - VA minha mãe, prestável, solícita, querendo fazer tudo ao mesmo tempo e ainda por cima libertar-me de acartar pesos, agarra-me nas canadianas e diz: "Vai andando que eu levo-te isto!"
O meu vizinho da cave é búlgaro e queira perguntar-me se eu estava melhor. Percebi-o pelo óbvio da situação, não que percebesse patavina do que dizia. A conversa prolongou-se, quase exclusivamente em linguagem gestual e qualquer coisa a que eu chamaria de grunhidos entremeados por uma ou outra palavra decifrável. Língua estranha, aquela. O senhor acabou por me perguntar se me tinham posto um prego. A avó dele caíra e puseram-lhe um prego na anca; quando morreu, tiraram-lho.
A grande dúvida que ele tinha, levou-a com ele: será que cá fazem a mesma coisa?
04 junho 2010
dama do pé-de-cabraJoyce entrou no quarto recostada na sua cama azul carregada por lacaios de farda branca. Imóvel, segurava uma caixa azul e branca que recomendavam manter sempre o líquido abaixo de um determinado nível.
Tinha um ar imponente e feições delicadas; os olhos verdes combinavam com a pele escura na perfeição. O cabelo, em poupo, era contido num lenço lilás atado à cabeça. O tom em que dirigiu poucas palavras aos lacaios era rude e denotava irritação. Dispensou, expedita, ajuda e pediu que lhe ligassem a televisão.

Bebeu um ice-tea de litro e comeu qualquer coisa contida num saco de plástico barulhento.
Para além de suspirar, manteve a pose até à hora de jantar.
À noite, seguiu com atenção as novelas e os concursos pirosos faziam-na soltar algumas gargalhadas. Parecia de poucas palavras mas perguntou se o som estava alto demais, preocupou-se.
No dia seguinte dispensou ajuda para tomar banho e perfumou-se com um intenso cheiro a baunilha. Ninguém lhe telefonava, não telefonava a ninguém. Depois do almoço veio o namorado, de capacete numa mão e saco com frutas na outra, sorridente. Namoraram protegidos pelo cortinado azul até serem repreendidos por uma vigilante.
Foi nos últimos dias que Joyce se revelou: lamentou-se da mãe que tem, que não a visitava, não lhe levava roupas, não se preocupava com a sua saúde. Pediu emprestado o telemóvel porque ninguém a vinha ver. E nessa mesma tarde, os amigos apareceram:
Entraram coleantes, como de dançassem, com movimentos que pareciam fazer parte do corpo, como se de um membro se tratasse. Cumprimentaram com gestos afáveis, parecendo que conheciam toda a gente havia anos.
Joyce recebia chamadas no meu telemóvel; a mais recente dizia que estava alguém lá em baixo a querer visitá-la (só agora a notícia do seu internamento se espalhara). Num ápice, os três amigos escurinhos desapareceram porta fora. Um levara três facadas e não mexia uma mão; outro fora vítima de um tiroteio no bairro, contou ela na sua retirada.
Entretanto investe um furacão pela porta dentro: Sara, a amiga de que me tinha falado. Vem de braço ao peito porque se envolvera numa briga na véspera, com o senhorio. Transpirava porque correra os sete andares à procura de Joyce; rodopiava para exemplificar a briga - conseguira acorrer a casa buscar uma faca para vingar-se e conseguira atingir o senhorio; jurava que aquilo não ficava assim. E que tudo tinha começado quando regressava a casa com o Pedrinho, o seu filho de três anos, de boleia com uma amiga que por sua vez andara à porrada com uma amiga que andou a dizer mal nas suas costas. Que aquilo também não ficaria assim. Nenhuma briga das inúmeras que começou a contar ficaria assim.
Multiplicava-se em histórias encadeadas, complicadas, relatos de lutas entre vizinhos com consequências físicas graves. Joyce mandava falar mais baixo; o telemóvel tocava e ela vociferava contra ele. Mandava-o calar até que atendeu. Estava lá em baixo alguém... Saiu de supetão.
Joyce ficou a contar o inexplicável acerca da sua vida, dos amigos, dos filhos que tem com cada pai. Agora já só pensava em sair dali, ver-se livre da caixinha do nível, mandou chamar o médico e obrigou-o a tirar-lhe o dreno. Avisada do perigo que corria se continuasse a fumar depois daquele edema pulmonar. Discutiram ambos, mas ela obteve alta.
A mãe apareceu com quem visita um familiar distante e de quem sequer distância, reprimindo-a dos seus actos; vinha para lhe trazer a enorme mala com documentos. Enquanto se vestia e se envolvia em baunilha, maldizia o hospital e os dias que ali passara. Por mim, apesar do risco que corri debaixo dum certo automóvel e nas mãos dos médicos, senti-me naquele dia mais vulnerável que nunca.
03 junho 2010
ma aventuraNo estado presente a minha vida é uma sucessão de aventuras.
Ultrapassar obstáculos simples e tão comuns que nunca pensei neles, transformam-se em momentos de reflexão, paragem e consciencialização do modo de fazer.
Descer ou subir uma escada: primeiro as canadianas, um pé primeiro depois o outro, levezinho, concentrada; entrar no carro, abrir uma gaveta, sentar, rodar, estender roupa, acorrer ao telefone que toca: estes são os meus problemas diários...
Hoje coloquei uma nova fasquia na minha recuperação: ir à praia e tentar nadar no mar, a conselho dos meus tratadores; na sua falta, apenas mar e água fria.
Entre mim e a praia há uma distância que fiz quase na totalidade e sem grande esforço.
Se muito esforço fosse necessário, faria-o de boa vontade; uma hora na praia tem sobre mim o efeito de me fazer crer que estou de férias.
Mas não nadei por não conseguir largar as canadianas - pareceu que atirar-me para uma onda seria uma tarefa arriscada, quase impossível, de loucos; cri que a rebentação das ondas na perna me traria algum bem - ainda espero que desapareçam as tumefacções que me deformam o joelho e o pé...
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