26 janeiro 2011

ipipipi - pipipi - pipipipi


Contrariamente ao que está estabelecido (ai!...) na compilação das atitudes recomendadas em sala de aula, vulgo Regulamento Interno, os meus alunos ouvem música enquanto trabalham em sala de aula. Dizem que os descontrai, que se concentram mais; claro que não creio nisso, mas tolero e aconselho porque os silêncios longos exasperam-me, fazem-me crer que sou uma espécie de vigilante sem farda.
Tenho a possibilidade de saber o que ouvem os jovens, coisa que aprecio e instigo a que me façam ouvir. Surpresa: miúdos de nono ano vidrados em Doors, Beatles e José Cid. Sabem as letras de cor mas não sabem quem era Stevie Wonder a não ser que é um velhinho preto e cego. Um dia destes trauteavam insistentemente a mesma música, cantavam em coro. Reconheci-a e fi-la tocar no computador da sala; pasmaram, não acreditavam que o êxito do momento tinha origem nos BoneyM. Quem são esses? E Barbra Streisand? Hã? E agora, quem é que pára esta porcaria de cantar na nossa cabeça o resto do dia?!

Os Pinto Ferreira - Teledisco para o 1º Single - Violinos no Telhado

25 janeiro 2011

licar aí

Ando algo desiludida com a escola, com a fraca produção plástica dos meus alunos de desenho, com as atitudes de alguns alunos de educação visual, com o fraco rendimento das horas que passo a trabalhar, com a variedade de temas que me ocupam; crio pouco, não tenho tempo para isso.
Depois, conduzo para casa e apanho estes senhores, que me fazem rir todos os dias.
capa do ciúme

Um colega e amigo convidou-me recentemente para fazer uma capa para um romance seu. É a sua estreia na edição e a minha numa publicação do género. Era um desafio e o risco era enorme; uma capa pode ajudar a vender (comprar?) ou simplesmente anular qualquer hipótese de sucesso (quanto a isto, veremos).
Sinto-me lisonjeada pela escolha e por ter sido uma das primeiras pessoas a ler a obra e poder trabalhar sobre ela. Agora, que estou a ler com o tempo necessário, afirmo que estou a gostar e aconselho vivamente a sua leitura.
Na próxima sexta-feira será o primeiro lançamento em ambiente de trabalho. Posteriormente haverá outro, fora da comunidade escolar, ainda sem agenda.


21 janeiro 2011

arole parole parole


À primeira vista, gostei do trabalho que o Paulo Azenha expõe em Lisboa. Mesmo que a obra não fosse grande coisa, era de salientar o facto de ser um português bem colocado no circuito internacional por via da moda e da Casa Channel. No entanto, a sua pintura é curiosa: as figuras são contornadas com letras e as letras são poemas.
Um segundo olhar faz-me questionar acerca da genuinidade disto e do seu propósito. Mais do que a exploração plástica das formas, parece-me haver aqui um filão que resultou num grande sucesso comercial. Azenha fica a dever isso ao mundo da moda, da publicidade mas também ao da poesia. Esperto, o rapaz.
A exposição "Qui est IN qui est OUT", estará patente até dia 30 na Fábrica Braço de Prata, com 20 trabalhos originais ilustrados, inspira-se na poesia de Serge Gainsbourg, homenageando a mulher.


18 janeiro 2011

se eu ficasse quieta?

Dói-me a perna do osso remendado mas obriguei-me a não faltar à hidroginástica. No duche deixei cair a toalha turca que se ensopou por completo. &%$#"(&*%$. Subitamente descobri que não tinha roupa interior.&%$#"*&*%$. O telemóvel tocou teimosamente enquanto secava o cabelo &%$#"*%$ e à saída tropecei numa pedra. &%$#"(&*%$.
Seguidamente subi os seis andares da praxe. &%$#"+&*%$. Praxe que já dura vai para dois meses.&%$#"+&*%$.
Alguém quer comprar um t3 com vista?

16 janeiro 2011

h yeS


De um modo geral, as pessoas andam preocupadas com a situação económica do país e do seu próprio mealheiro que reduz todos os dias. Há excepções: aqueles que têm muito dinheiro e o senhor S. Quem tem trabalho luta por ele e quem os perde escarafuncha à procura de outro, menos o senhor S.
Sendo singular, podia ser admirado pela maioria que, agarrada a empregos mais ou menos agradáveis, fazem pela vida e preferem a estabilidade de um emprego. Mas não, não é tido em bom apreço esse seu gosto pela preguiça e é severamente criticado o seu modo de vida. Criticado mas muito curioso, levantando as mais diversas perguntas e dúvidas acerca do modo como sobrevive.
O primeiro esforço que o senhor S faz na procura do emprego ideal passa por elaborar uma lista de prioridades. O primeiro passo é verificar se contempla alguns pontos fundamentais. Os que passam o teste acabam por ser recusados, porque ainda não é momento ou simplesmente porque não apetece, ou porque estão a chegar as férias ou porque as férias acabaram de passar ou porque o cansaço após as férias é demasiado.
O dinheiro não é uma prioridade da sua vida; levantar cedo e cumprir um qualquer horário são duas condições que não se podem verificar. A terceira é o automóvel: o senhor S tem que ter um lugar de estacionamento grátis, de preferência perto do local de trabalho - por baixo, por cima e raramente ao lado, o que torna a distância muito longa.
Há alguns meses (raramente se pode falar em prazos mais longos), o senhor S encontrou um trabalho que parecia satisfazer-lhe, mas durou pouco. Questionado sobre isso, a resposta é a surpreendente: as 24 horas do dia não dão para tudo, é impossível trabalhar, fazer compras, cozinhar, lavar roupa, limpar a casa. Optou, portanto, uma vez mais.
Pergunte-se ao senhor S como sobrevive e consegue manter-se à tona do nível da água e ele responderá que não conta viver muito, por isso enquanto cá andar tem que aproveitar o tempo todo que não pode ser desperdiçado a trabalhar. Para além das inúmeras outras qualidades, o senhor S tem poderes divinatórios.
Singular? Sem Sombra de Suspeita.

13 janeiro 2011

rocas


  • Hoje trocaram-me o nome duas vezes. É frequente atribuírem-me epítetos de acordo com as minhas funções ou estados - rapariga que tira fotografias, miúda do PTE, super-fina... Mas desta não foi uma simples troca - foi mesmo ignorância. Duas senhoras, de quem sou colega há uns valentes anos, não só não sabiam o meu apelido como me deram outro, de uma outra colega bem próxima.
  • Ao tentar marcar uma consulta para uma amiga, contactei um hospital dando o nome da médica. Mas em vez de Esperança, como teimei por algum tempo, ela chama-se Felicidade...
viso para as minhas visitas


Este texto não é original mas não resisto a transcrevê-lo. Para além dos motivos óbvios, é totalmente verdadeiro. O autor é desconhecido.
  1. Sejas sempre bem-vindo.
  2. Lembra-te de que os meus cães vivem aqui. Tu não.
  3. Se não queres pêlos de cães na tua roupa, fica de pé, longe do sofá. Sim, os cães têm hábitos desagradáveis. Eu também, assim como tu.
  4. Claro que eles cheiram a cão. Já percebeste como nós, humanos, cheiramos ao final de um dia de trabalho? Põe-te no lugar de alguém que tem um olfato 400 vezes mais sensível que o teu... No entanto, ele recebe-me sempre com explosões de carinho no retorno ao lar.
  5. É da natureza deles tentarem cheirar tudo. Por favor, fica à vontade para cheirá-los também.
  6. Se existisse algum risco dos cães morderem as visitas, eu não deixaria aproximarem-se delas. Porém, não posso impedi-los de responder a agressões, as quais podem ocorrer até em pensamento, seja para com eles, seja para comigo a quem devotam fidelidade. Os cães percebem, tenho a certeza.
  7. Já tentaste beijar alguém e receber em troca um empurrão? Se um cão tentar lamber-te é porque aprova tua presença e quer demonstrar isso carinhosamente - os cães não mentem nem fingem.
  8. Comigo, os cães têm os devidos cuidados veterinários, alimentação sadia e cuidados higiénicos. A sua companhia é altamente recomendada pelos médicos e a maioria das doenças que contraem ao longo da vida com certeza são transmitidas por outros humanos, coitados.
  9. Há diversas situações nas quais os cães são preferíveis a pessoas. Afinal de contas, sempre podemos confiar inteiramente em sua fidelidade e sinceridade.
  10. Para alguns eles são simples cães. Para mim são filhos adoptivos que andam de 4 patas e não falam tão claramente.
  11. Volta sempre que quiseres, pois serás bem-vindo. Até pelos cães. Eles são mais sensíveis que nós, bastando aproximar-se para distinguir com clareza os verdadeiros amigos.

10 janeiro 2011

opada




Sem querer, tropecei neste nome e na sua fantástica obra que desconhecia. Poder-se-ão levantar clamores a chamar-lhe pirosa, pintura de calendário. Fiquemos-nos pela intriga que sugere: fotografia ou pintura super-hiper-realista? Chamava-se Perder Mork Monsted este viajante dinamarquês que se dedicou ao retrato de espaços e gente. Na sua colecção encontram-se elementos impressionistas - talvez esteja aí a chave para a representação tão fiel a luz e do ambiente.

09 janeiro 2011

utilidades

As redes mais ou menos sociais que estão na moda são sítios onde toda a gente tem algo a dizer - quem sabe escrever, quem não sabe mas escreve na mesma sobre todo o género de coisa.
Há coisas mais enervantes do que erros ortográficos: as mensagens de paz e amor e o brilho da florzinha e a pinga de chuva e o raio de sol e o poeminha foleiro. Enerva-me mais ainda quando são publicados em catadupa e quando m'as publicam no mural. O senhor Cebola faz-me lembrar alguém que conheci em tempos; diz muita vez a mesma coisa, instruções básicas importantes para a vida em sociedade, só que fá-lo todos os dias!
Por favor, caros anónimos, não me venham colar coisas dessas na minha parede.
inga



- Dois cafés e um carioca. Só?
- Eu queria mais qualquer coisa...
Silencio.
As cabeças rodam e fixam os olhos em mim como é habitual. Olham e esperam e riem. Quanto mais olham mais embucho e engulo as palavras. Mais apetece.
- Meio bagaço.
Alarido total. Um dedo? Dois?
- Posso então oferecer uma jeropiga da boa?
Ofereceu uns copinhos de mosto, para quê chamar-lhe outra coisa?
passatempo...



Um filmezeco que vende à custa de um nome (enganou-se, o Johnny Depp quando assinou este contrato?!), que contracena com uma espécie de cabide pestanudo com lábios vermelhos carnudos, um argumento corriqueiro, um sem fim de lugares comuns... Oh meu deus, que maçada!

07 janeiro 2011

ágoa e júbilo

Uma das minhas maiores mágoas, senão a maior mesmo é saber que existem pessoas más que não se preocupam com a vida nem o sofrimento alheios.
Dias antes do natal, pediram-me ajuda; um cãozinho pequeno tinha sido deixado num terreno qualquer abandonado à sua sorte. O animal estava ensopado, não se mexia e gemia com dores. Foi internado num hospital veterinário onde ainda hoje se encontra. Talvez um dia caminhe; por agora só se move rastejando.
A sua história conta-se assim. Não tem passado mas projectamos-lhe um futuro que se quer não seja feito de tragédia. Remenda-se assim o erro de alguém que não merece ter nome de gente.





06 janeiro 2011

'm back

Estava a tratar do serviço fúnebre deste blog quando decidi vesti-lo de branco em busca de uma última réstia de vida.
É o tempo? Ou falta dele?
Desde que regressei oficialmente ao trabalho, perdi a vontade de fazer outras coisas que me entretinham antes. Vi-me porém envolvida num sem número de outras tantas que me fizeram recordar quem sou e o que me move.
  1. A escola? Não a escola que tenho hoje. Essa sufoca-me, enrola-me em projectos absurdos que estão longe de me entusiasmar e merecer sequer metade do tempo que lhes dedico. Não me faz mover. Obriga-me. (Que me desculpem os meus alunos, a metade de que gosto muito).
  2. Os animais desprotegidos? Sim, isso interessa-me, faz-me lutar, dedicar tempo, deslocar-me, inventar meios. E no entanto, não sabendo eles agradecer-me, fazem muito mais por mim do que a escola. E eu por eles.
  3. Desenhar e criar voltou a ser uma dedicação tão desleixada por tanto tempo. Não crio para emoldurar - as coisas devem estar no lugar que lhe pertence: um bloco, um montinho de papeis amarrotados, uns panos empilhados, uma pastinha no ambiente de trabalho. Devo muito deste re-interesse a amigos que me envolvem nos seus projectos. Devo agradecer-lhes o voto de confiança que me deram numa fase em que acreditava pouco, e inconscientemente, que voltasse com tanto gosto.