26 fevereiro 2011





Esta semana aconteceu uma coisa muito importante, à qual grande parte dos portugueses são alheios: foi aprovado na AR o fim do abate de animais saudáveis em canis e gatis municipais.
As pessoas ignoram e são indiferentes porque não conhecem a realidade deste departamento da sociedade miserável em que vivemos: animais que vivem em condições deploráveis, onde são assistidos por veterinários sem escrúpulos (veja-se o recente caso de Évora) que nenhum respeito têm pelo sofrimento e alguns que promovem o abate como um desporto (onde é que isto me lembra a caça?); donos que ali depositam para acabar tristemente os amigos que lhes foram fiéis e a quem dedicaram uma vida.
Foi aprovada igualmente a esterilização de animais como meio de evitar a propagação de problemas e principalmente o nascimento de outros tantos animais que nascem para sofrer. É preciso mais do que isso: é urgente consciencializar os donos, impedir nascimentos. Estatísticas dizem que nos EUA a cada hora nascem cerca de 2500 cachorros e 450 seres humanos. "Portanto desde o nascimento, só um em cada quatro filhotes terá chances de encontrar um bom lar. Encontrar um lar permanente é ainda mais difícil somente um em cada 10 cães permanecem com seus donos originais por toda a sua vida. Cinco trocarão de dono antes de completar um ano de vida. E o saldo terminará em abrigos, abandonados ou indesejados. Mesmo que seu cão seja um cão de raça caro, seus filhotes estão sujeitos às mesmas estatísticas. Milhões de cães serão sacrificados anualmente em instituições ao redor do mundo já que não há lares suficientes para abrigá-los. Há tantos animais abandonados hoje em grandes cidades, que os legisladores já pensam em coibir ou limitar drasticamente a criação de cães."

Depois aparecem os Matias, as Lolitas, e as Milus que têm a sorte se reencontrar uma casa e não morrer na rua...
Uma das melhores notícias que tive nesta semana foi ter lido estas palavras no facebook, escritas pela dona do Matias, que o adoptou das minhas mãos há uma semana:
"O Matias teve hoje o seu primeiro jantar social, com toda a família, tios, primos, tios avós, adorou!!!!! Festinhas em grande, beijinhos, lambidelas, fotos para levarem, enfim uma estrela! Foi adorado por todos, o que e muito fácil! Depois disso ceou (porque antes jantou) eu que tenho andando com a preocupação se come bem... se mija bem... se caga bem... (desculpem a expressão) mas e isso mesmo, e estou a terminar o meu dia muito feliz, porque ele fez tudo isso e mais... acabamos o passeio no jardim com o Pingas e a Branquinha e o Matias esteve durante uns cinco minutos a fazer o que eu chamo "ver a vida" que e, um determinado ângulo do jardim que tem uma vista maravilhosa e em que ficamos a "ver a vida" ensinei o Pingas a fazer isso a 12 anos atras e a muitos que ele faz isso sozinho, o Matias fez isso hoje e no fim deu um suspiro la bem do fundo,olhou para nos (pingas eu e Branquinha) e foi como se disse-se "Bom!... Vamos para casa????" E eu senti que ele esta em casa! Não e "Eu" e sim "Ele" esta em casa! Beijos amigas e obrigado pela oportunidade que me deram!"
E eu não sou de chorar...

lixadora

Quinze dias passados e os pombinhos andam desatinados. Convidei-os para um jantar arriscado. Ele fala muito, ela tenta ser simpática mas as frases mais arrevesadas tornam-se impossíveis de traduzir, ela desconfia das nossas risadas e não sabe como agir. Os olhos varrem-nos a todos num vaivém imparável debaixo de um sobrolho quase sempre franzido. Tem frio; aconchego-lhe um casaquinho a que pedi o amor e liguei-lhe o POCCNR24 para se entreter.
Uma semana depois disso e ela ainda amarra o burro - os tradutores automáticos não estão a ser eficazes, as gavetas dele estão atulhadas de um passado que ela queria que ele não tivesse tido e mete-se na cama, zangada com o mundo. Atendendo a que o mundo dela é ele, está, de um modo geral, zangada em permanência. O quotidiano revela-se difícil, confessa-me ele. A interprete não-colaborante no casamento, vê-se agora, não percebeu nada do que traduziu no momento. Qualquer programa de computador teria tido melhor papel: a estrangeira não percebeu que ia entrar no mundo das autoridades portuguesas e sentir-se uma traça dentro de um novelo de lã, roendo, roendo, roendo sem nada conseguir. Querem agora devolvê-la à procedência para tirar novos documentos porque tem um apelido que não combina com o de nascimento. O pior disto é que tudo podia ter sido evitado se a tradutora não estivesse tão preocupada com as voltas da ècharpe Yves Saint Laurent... Como em todas as histórias, há sempre alguém a estragar a festa.

20 fevereiro 2011

á agora, uma perguntinha

Tenho um punhado de amigos inteligentes.
Porém, alguns têm perante o mal-estar, a dor, a doença ou a suspeição dela, temores que me espantam e surpreendem. A esta hora estará alguém a pensar: mas que tinha esta que falar de mim?
É assim tão óbvio?
Em vez de procurar respostas fazem estimativas, previsões, invenções e sofrem com isso porque continuam com os problemas por tempos infindos.
Interrogo-me sobre o que as impede de buscar a clarividência da investigação clínica.
Terão tão pouco interesse pela saúde? Ou tanto que nem querem saber? Miufa?
fmi
vem para Portugal em breve. Tenho que o convidar para jantar.

15 fevereiro 2011

ruzamentos

Pela segunda vez nas nossas vidas, cruzámo-nos, eu com o meu animal de oito patas e o casal nobre (não o nobre casal). Não me reconheceram mas voltaram atrás quando o tico e o teco formularam a hipótese de poder ser mesmo eu. Desta vez iam a pé, tinham deixado a carrinha da lavandaria Pela Fé num praceta próxima. Continuam, dizem, a rezar por mim. Continuo a não dar por nada...

A não ser quando me cruzo com dois anjos que frequentam assídua e ruidosamente o meu prédio: têm fatos azuis e um emblema bordado a dizer thyssenkrupps.

14 fevereiro 2011

tf? (o fim e um princípio)


Dissipadas todas as dúvidas que se arrastaram por semanas, o dia chegou, encharcado. Ambos trajavam de preto, ele num conjunto improvável mas funcional: casaco de smoking e caneleiras de malha por cima de umas botas da tropa e a habitual écharpe verde tropa. Na cabeça e na cara apresentava alguns sulcos ensanguentados; que fora um gatinho a que fez festas na rua.
Lana foi pontual e desta vez as sedas e o batom em excesso estavam no dia certo mas outra vez totalmente desajustados. Subimos ao quinto andar para descermos à sala Diamante. A cerimónia decorreria normalmente não fosse ter havido um esquecimento de discussão prévia da adopção dos apelidos de Kalinka. A conversa azedou - Lana não percebia as piadas e não sabia apresentar a proposta da conservadora, que propunha uma hipótese conservadora; Kalinka teve naqueles dez minutos mais variações sobre o seu nome do que algum dia sonhara. Nosferatu começava a perder as estribeiras, a coçar as mãos nas pernas e conter-se para levantar a voz. A conservadora listou os diversos nomes para Kalinka assinalar o preferido e deu o assunto por encerrado quando se descobriu que os três diziam a mesma coisa, mas em línguas diferentes. Podemos assim avançar para a introdução das alianças patrocinadas pelas madrinhas; fizeram-se umas juras nas duas línguas e o acto findou porque havia uma filinha de noivos a casar no dia de s.Valentim...
O almoço foi na cave duma tasca, ali para a marginal, entre trolhas de calças pintadas e barretes enfiados até às orelhas. Naqueles lábios de botox não se viu mais que um sorriso nem quando abriu os presentes. Estaria feliz Kalinka?

10 fevereiro 2011

uidoso mas enlevado


plam! shriiiiiiiiiii! crás! pás! rrás!
vrouuuuuuuuuuuuummmmm.....
pum!
vrouuuuuuuuuuuuummmmm.....
Almost otis ready!?
tf? (o durante)


À hora certa, nobentes e madrinhas, que nunca se tinham antes encontrado, compareceram na conservatória.
Kalinka tem olhos azuis, fujidios, sobrolho franzido, olhar desconfiado; os lábios grossos ao estilo Jolie, sempre mordidos a deixar transparecer nervosismo.
Vinham de mão dada, ele com os seu habitual ar esgazeado, carregando malas - um portátil e um instrumento de sopro que não chegou a tocar...
Aguardámos uma interprete que chegou atrasada mas altamente arreada como se fosse para uma festa de fim de ano em Mem Martins. A sua roupagem contrastava gritantemente com as roupas discretas de Kalinka, embora falassem a mesma lingua, aproximadamente.
Subimos ao quinto piso onde éramos esperados por uma conservadora com sotaque acentuadamente nortenho. Fomos entrevistados um a um à excepção da nubente, que teve que se socorrer da vítima Lana o que se verificou ser um desastre pois não terá percebido metade do que a conservadora lhe dizia.
O nervosismo do noivo era evidente; circulava em diagonais na sala de espera, de mãos nos bolsos das calças justas. Preocupava-o não ter combinado com a noiva a data em que se terão conhecido... Um? Dois anos? O que irá ela dizer? Porquê tanto tempo?
Quando Lana assomou à porta de vidro, era evidente a sua preocupação; sacudia-se, abanava os cabelos compridos cor de champanhe rosé; retocou o baton, passava a mão a compôr o rimel.
Apressou as despedidas porque desconfiava que tinha deixado ligado o ferro de frisar o cabelo, tinha que correr para casa. Estava indignada com a falta de informação: tinha demorado tanto tempo a arranjar-se para uma cerimónia e afinal tratava-se apenas dos preliminares que a antecedem o grande dia...
Nosferatu foi convocado para a conferência, Lana saiu e ficámos as três: eu, Mada e a noiva que não percebia patavina do que dizíamos e se socorria de um dicionário amarelecido e gasto para explicar qualquer coisa que não chegámos a perceber. A única comunicação estabelia-se entre as madrinhas, nós sim, falávamos a mesma linguagem corporal...
A minha entrevista foi facilitada pela anterior. Mada tinha contado o essencial: que se conheceram há dois anos, que estavam nitidamente apaixonados, que ele não pensa noutra coisa, que só quer o bem dela, que a enche de presentes, que se preocupa com a sua saúde, com a sua família...
O casamento será na próxima segunda-feira, dia dos namorados e abençoado por um camarada kupidov.

07 fevereiro 2011

efém
de uma simples frase: "está previsto"... *


*assim reza a promessa de concerto dos elevadores.

lusões


À primeira vista esta caixa contem um caixote de lixo.

Um olhar mais atento a uma pequena etiqueta colocada de lado indica o seu real conteúdo:

vestido de noiva da Anita...

02 fevereiro 2011

tf?! (o antes)

Kalinka tem mau feitio e zanga-se muita vez embora não perceba nada do que Nosferatu diz quando lhe pede para poupar água. Ele não toma banho e ela toma de imersão. Ela lava o chão com um produto que ele não quer. Ela amua, mete-se no quarto, resmunga palavras esquisitas.
Ela é uma brasa; Nosferatu é Nosferatu, a cara e o corpo do demo e talvez a cabeça também.
Há cerca de um ano, Nosferatu convidou-me para casa dele. Levei a Lolita para ser mal criada - desejava que não me voltasse a convidar para as castanhas com água-pé. Isso aconteceu realmente mas penso que foi porque quando me tocava eu fugia para além de nunca lhe ter retribuído o convite - desrespeitei as regras da boa educação.
Durante algum tempo fui tendo notícias dele de quando em vez. Bebia umas minis na loja de uma amiga comum e falavam de mulheres. Discutiam, zangou-se, afastou-se.
Voltou com uma notícia: tinha uma namorada russa e comunicavam à distância porque se conheceram na internet. Mandou-a vir, foi ter com ela a um país distante para se conhecerem pessoalmente, tendo por isso ficado na penúria, de onde raramente saía.
Moram juntos, continuam a não entender nada do que dizem um ao outro mas vão casar. E como comunicam? Pela internet. E quado se zangam? Traduzem no computador.
Um dia destes Nosferatu ligou-me: convidou-me para madrinha de casamento. A que horas é isso? Dez, espera, vou perguntar; ao longe, ouvi: is it at ten? Grunf, fuk fu...