30 setembro 2008

porque a boca sabe a fado

orque a boca sabe a fado

Em tempos, havia uma cançoneta foleira, do Nelson Ned, que perguntava o que é que você vai fazer domingo à tarde? A mim perguntaram-me isso e aderi a uma matiné de fados no coração de Lisboa - quatro horas, Palácio dos Távoras, sede do Grupo Desportivo da Mouraria. Chamam-lhe a Catedral do Fado e dizem que por ali passaram (hoje) grandes nomes do fado. Esta cultura castiça progride sem grandes alaridos, longe dos parques da bela vista e dos coliseus; vozes sentidas e enérgicas duma geração que eu pensava não ligar pêva ao fado, divulgadas por três remotas rádios locais, que conhecem os nomes das vozes e se esforçam por dar a vez.
Não foi só o fado fascinante, mas o espaço (imodesta e escandalosamente maltratado) mas que tresandava a genuíno bairrismo e tradição. Paredes de azulejos do século XVIII encimadas por barras de molduras foleiras e desenhos com pregões populares. Festões de natal que engalanam os salões todo o ano. Tectos de madeira policromada perfurados por suportes de lâmpadas florescentes. A cozinha, revestida de azulejo de cerâmica azul e branca, mostrava um nicho feito exactamente à medida da máquina de café Zanussi. As mesas acotovelavam-se num salão criminosamente revestido de betão, que outrora foi de tábua corrida.
Sentamo-nos na mesa da Alzira, de Alfama. Sim, as pessoas são apelidadas de acordo com o bairro de onde vêm. Eu seria a Janota, da Parede, mas ninguém me reconhecia, nem mesmo eu. Passemos então à reportagem e vejamos um caso prático: onde estou?


















"É lucidez desatino/De ler no próprio destino/Sem poder mudar-lhe a sorte/Somos dois gritos calados/Dois fados desencontrados/Dois amantes desunidos/Nesta luta, esta agonia/Canto e choro de alegria/Sou feliz e desgraçada/Que sina a tua/meu peito/Que nunca estás satisfeito/Que dás tudo/E não tens nada/Cada beijo nos conquista porque a boca sabe a Fado"

29 setembro 2008

ficar a anhar

iquei a anhar





De máquina em riste de novo, estreio-me nesta espécie de rentrée pós-fichas de avaliação, com um cartaz oportuno com que topei numa esquina da Mouraria.
O que fui fazer à Mouraria?
I'll be back!

24 setembro 2008

revisitação

visitação


O meu cão visto do meu baloiço
Aqui deste lugar onde me encontro e para onde venho sempre que quero pensar, o dia parece mais bonito do que está na realidade; as nuvens que acabam de encobrir o sol dão o seu contributo à passagem de uma brisa fresquinha que torna ainda mais agradável o oscilar do baloiço.
Cumpriu-se o ritual de domingo, mais uma vez, do modo que tanto prezo: o café acompanhado pelo jornal da véspera, cujo atraso de um dia não chega para me desinteressar das notícias. Em intervalos regulares, o Dick expressa a sua presença, soltando um grooof para me lembrar o momento da carícia, disfarçando esse objectivo num a demonstração de cão de (alguma) guarda. Essa nunca foi a sua função, apesar do seu porte excepcional; mimado por toda a família, tornou-se num cão seguro de si, mas que se derrete a qualquer minúscula manifestação de simpatia. Acredito que saltaria de alegria se eventualmente um ladrão se atrevesse a saltar o muro. Passo-lhe a mão na cabeça e ele retribui com uma delicada lambidela na mão, depois no pulso, depois no braço e em breve estou toda lambuzada por aquela língua terna, enorme e delicadamente áspera. Dick é como uma sombra que me segue para todo o lado. Neste momento, dá mais uma volta sobre si próprio e enrosca-se nos meus pés. Dar‑lhe‑ão segurança, presumo.
Este amigo é diferente de todos os outros – está sempre presente, quer eu precise dele quer sinta que a sua presença me incomoda: ele não arreda pé. Aprendi, por isso, a tê-lo como meu confessor surdo-mudo – qualidade que nenhum outro amigo possui, já que essas características num humano seriam tidas como anormalidade. Posso enumerar alguns amigos surdos e outra meia dúzia de amigos mudos. Uns e outros fazem-me crer que nenhum detém todas as virtudes do Dick, para além de acharem esta nossa relação muito estranha.
Não me sentarei neste lugar por muito mais tempo, o que significa que não me balançarei deste modo outra vez. Não haverá muitos domingos assim, haverá outros, talvez melhores, talvez mais oscilantes, talvez outras magias encerrem. Assim como houve alguns domingos dos quais guardo boas recordações, haverá outros à frente.



Junho2008

16 setembro 2008

magnífico entardecer

agnífico entardecer


A fotografia não faz jus ao momento (maldita máquina que ainda não recuperou da avaria!). Nada como um final de dia assim e com uma aguazinha bem gelada para carregar baterias.

10 setembro 2008

coisas como já não se usam

oisas como já se não usam

Já vão em duas as camas que recuperei nestas férias. Ambas estavam destinadas ao desperdício e voltaram assim a introduzir-se na cadeia operativa. Da primeira já aqui apresentei um detalhe (a atirar para o roxo). Da segunda não mostro nada simplesmente porque no meio de tanta recuperação, a minha rosada máquina fotográfica está para reparação, obviamente.
Esta segunda cama que está a aguardar a fase de montagem, foi recuperada segundo os preceitos mais antigos. Antigos? não, apenas desusados - utilizei técnicas, materiais e paciência que estão a cair em desuso; lixei-a com palha d'aço em vez um qualquer mouse; passei-lhe aguarrás e não um qualquer decapante; pincelei-a com restaurador Pronto e dei-lhe uma camada de cera incolor- resolvia o problema da cor e do brilho de uma vez só, com Bondex, mas fui pelo caminho mais difícil e trabalhoso. (Estes pormenores técnicos poderão ser secantes, mas são a verdadeira justificação deste texto...).
Tudo isto não está isento de algum prazer: trouxe-me cheiros agradáveis que se impregnaram na casa e me vão acompanhar no sono; está de acordo com o objecto e facilitou-me o problema das compras dos produtos - em vez de correr quilómetros em direcção a um qualquer hipermercado para comprar latas de produtos quase industriais, resolvi tudo na drogaria da rua ao lado que, nem de propósito, tem como proprietário o senhor Marcolino. A drogaria do senhor Marcolino ainda vende produtos populares, daqueles que já ninguém usa, como por exemplo, a cera Encerite, que É a Beleza e a Saúde das Madeiras.
Daqui a algum tempo olharei para a cama e para o tempo que me levou e pensarei como é que um dia eu tive paciência para isto. Mas uma coisa garanto: no meio de tanta necessidade de terapia, esta é uma que aconselho.

07 setembro 2008

os novos vizinhos

s novos vizinhos

Não há muito tempo desde que escrevi um textinho dedicado aos meus vizinhos. Também não há muito tempo que os abandonei. A mudança foi longa e difícil, como o são a grande parte das mudanças. Procura-se um rumo novo e criam-se expectativas ao mesmo tempo que se quebram os laços que levamos anos a construir. O resultado é estranho a diversos níveis; já não tenho a quem gritar bom dia! da janela, já não tenho quem me olhe pelas plantas, mas isso é precisamente porque não tenho sequer um vasinho...
A relação próxima e de alguma dependência que tinha com a A., provoca um diálogo soluçante quando me telefona para saber como estou e para desabafar sobre a sua cansativa reforma rica em compromissos com os netos. Lágrimas que lhe enchiam os olhos de cada vez que estava satisfeita e me agradecia por aquilo que considerava uma ajuda preciosa (minudências!) sem a qual nunca poderia passar. Passa, passa.

Foram lágrimas, de novo, que me fizeram hoje aproximar dos novos vizinhos. Ao fim da tarde, quando começava o bacalhau à zé do pipo para o jantar, ouvi chorar convulsivamente; o choro crescia, uma senhora gritava e dizia qualquer coisa que eu não percebia. Percebi ao fim de algum tempo, que o choro vinha de cima, provavelmente da senhora do segundo andar. Tracei o pior cenário: imaginei o marido prostrado, vitimado por qualquer coisa súbita e que estariam os dois sozinhos. Abri a minha porta e avancei para o hallzinho da entrada perceber melhor o que se passava quando sou surpreendida pelo próprio marido que vinha da rua...
- Assustei-a?
- Não! (que ideia!, já o imaginava estendido no chão...)
- Ah, sabe, este choro... é a minha mulher... deram-lhe a notícia da morte da melhor amiga... foi de repente... ela não está a aguentar... faz muito barulho, incomoda os vizinhos todos... Mas suba, venha fazer-lhe um pouco de companhia... suba que ela vai ficar contente...
Não queria acreditar, hesitei mas não tinha fuga, o senhor empurrava-me com os seus modos delicados e lá fui eu oferecer os meus préstimos e afundar-me onde não queria. A senhora agarrou-se a mim, com os olhos inchados de tanto chorar. E eu balbuciava uns disparates de tal ordem que o marido resolveu informar-me de que são evangélicos. Eu sei lá o que isso é na prática...
- Vês, Tété, anima-te. Vai-se uma amiga, ganha-se outra...

...

06 setembro 2008

terapia ronron

erapia ronron


Confesso que nunca fui apreciadora da companhia de gatos, precisamente porque nunca me inspiraram grande confiança em adultos. (Abro este parêntesis para abrir uma excepção: apenas no gato Zorbas deposito incondicional confiança).
O ronronar dos gatos faz-me desconfiar das suas intenções - não sei se estão felizes com as carícias, desconfiados, receosos ou prestes a mostrar as unhacas afiadas. Os meus receios têm fundamento, porque o ronronar pode significar tudo isso, mas é muito mais: para os próprios gatos, ronronar é uma terapia que propicia a auto-ajuda em caso de doença, para além de favorecer a respiração, fortalecer os ossos e aliviar a dor; isto por causa das vibrações e sons graves que produz. Em caso de doença grave, quando o gato consegue ronronar, está a iniciar o período de recuperação para mais uma das suas sete vidas. Para os humanos, o ronronar do gato ajuda a reduzir o stress e a baixar a tensão arterial. A melhor cura para a dor de barriga será então colocar um gato na barriga e deixá-lo ronronar. Prevejo, portanto, sérias reduções nas vendas de Trifene200.

Se eu fosse gata, desconfiaria destas afirmações. Sendo janota, acredito que tudo isto seja verdade porque reconheço que é bom acariciar estes bichanos enquanto creio que estão felizes.

Acabo de ter uma boa genial para as minhas prendas deste natal.

05 setembro 2008

Apontamento

pontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali

Álvaro de Campos, 1929

(versão de Margarida pinto, ex- Coldfinger)

03 setembro 2008

estrela do mar

strela-do-mar


Sobre as estrelas do mar, achava eu que sabia como eram. Principalmente, lamentava pertencerem ao rol dos seres em vias de extinção. Pensava até não ser possível encontrá-las no seu habitat, na nossa costa.
No domingo passado descobri uma dezena de estrelas do mar de tamanhos variados, numa profusão cromática que me espantou, na cavidade de uma rocha que tem o meu código postal. No mesmo buraco, e numa admirável paleta de tons castanhos e vermelhos, um vai-vem de algas esquias e pequenos búzios em deslocação. Estava eu sossegada, a observar tamanha beleza, quando se aproximam dois palermas, com idade suficiente para já o não serem. Perguntaram-me se eu queria pegar numa estrela; indignada, respondi para as deixarem na paz do seu recanto. Mesmo assim, mostraram-me uma - estranhei a textura rugosa e surpreendentemente dura, numa forma tão macia e delicada. Numa extrema afirmação de estupidez, disseram, "isto é lindo é seco, envernizado e pendurado na parede". Se houvesse como embalsamá-los para fazer perdurar o retrato da estupidez, aposto que haveria grande dificuldade em encontrar os seus cérebros minúsculos.