28 abril 2010

áva-me jeito um título nisto

Não queria fazer deste espaço um muro de lamentações mas não tenho alternativa.
Hoje foi dia da tão aguardada consulta médica, com direito a exames e um duro revés: uma fissura no maleolo interno, coisa que se situa no tornozelo (a extremidade da tíbia) e que tem que colar por si. Pergunto: não viram isto antes? Parti eu própria esse ossinho nas minhas viagens de ambulância?!
Os modernos meios de diagnóstico e os sistemas usados para visualizar exames, permitiram fazer e ver tudo na hora; fiquei elucidada em relação à comprida cavilha que me colocaram na perna. Mas agora, mais tempo de recuperação, mais exames à vista, às partes moles da perna, para ver se descobrem porque dói tanto.

Entretanto, decorre o processo com a seguradora, que ainda não assumiu a culpa. Se é óbvio que eu sou o terceiro de um seguro duma viatura com danos contra terceiros, não há certeza acerca de quem conduzia o dito veículo. Previsão: mais chatices.
Pelo sim pelo não, os ocupantes do veículo atropelador, vão enviando sms de conforto, à média de um salmo por semana. Vejamos:

"Desejo lhe rapidas melhoras. Assim diz a palavra de Deus em Isaias 45. "Te tomarei pelas tuas mãos, abrirei as portas diante de ti e nunca mais se fecharão, Eu irei sempre a tua frente e farei um caminho perfeito, dar-te ei os tesouros e riquezas, pois Eu sou o Deus de Israel..."Nunca te abondonarei serei fiel em minhas promessas... Que essa palavra dia apos dia se cumpra em tua vida... Creia sempre em Cristo Jesus e jamais desistas dos teus SONHOS. tenha um bom dia. bjs !"

Alguém disponível para ajudar? Careço de tradução.

26 abril 2010

meu musical bus...

Andam por aí algumas amigas entusiasmadas com a proximidade de uma festa (à qual eu tanto lamento não ir) e para a qual se podem deslocar num musical bus, designação e utilização exclusiva.
Também eu tenho o meu. Passa à minha porta dia sim, dia não e sou eu quem o chama. Tem vários lugares sentados sendo dois deles especiais: duas cadeiras de rodas. Já me aconteceu apanhá-lo cheia de dores e ser levada em passeio quase turístico à Malveira, a Janes, a Alcoitão, sempre buscar outros deficientes passageiros como eu. Os destinos são, invariavelmente, o hospital e o regresso a casa. Os bus são, na sua maioria, velhotes, abanam e têm o rádio sintonizado da rádio renascença. As dores são ampliadas pela trepidação e os meus braços ressentem-se do esforço para levar o rabo no ar...
Hoje houve algumas nuances: os bombeiros atrasaram-se uma hora e conduziram-nos pela marginal. Vi finalmente a rebentação das ondas do mar que vejo da janela e gostei. Os passageiros eram duas senhoras menos trôpegas que eu e três meninos, deficientes mentais. Um deles foi todo o caminho a fazer "Piiiiiiiiiii" e outro virava-se de quando em quando para me mirar de cima a baixo. Chegámos à fisioterapia de tal modo atrasados que a minha sessão foi encurtada. Não sofri tanto, mas por outro lado, não tirei benefício dela. Sim, parece que a melhoria é directamente proporcional à dor que tenho que aguentar. Pelo menos até quarta-feira e à consulta do médico.

23 abril 2010

u, animal de quatro patas - III

Dia muitos. Nova sessão dolorosa de fisioterapia. Surgem dúvidas acerca da hipersensibilidade da perna, que não suporta o toque. Problemas circulatórios?
Um olhar clínico esclarece: são hematomas que comprimem os sistemas venoso e nervoso. Há que redobrar a dose. volto para a marquesa até verter umas lágrimas. Segue-se uma tina com água, hidroterapia. Moral da história: estou que nem posso, mas a perna desinchou ligeiramente.

Visita do perito da seguradora: perguntas sem fim, a ver se bate a bota com a perdigota. Parece que quem conduzia o veículo vai ter problemas, mas não vou ser eu a causar-lhos.
Pois bem. Volto para o meu sofá e para os meus passeios de canadianas no corredor. Agora que o portátil se virou contra mim, apenas poderei estar por aqui uns minutos...
Para concluir a vaga de retaliação da informática em relação a pessoas de canadianas, devo acrescentar que esta foto foi colocada dez vezes sem sucesso; o destino dela é ficar de pernas horizontais. Assim seja.

22 abril 2010

u, animal de quatro patas - II

Mobilizou-se um enorme grupo de fãs, meus e dos cães. Recuperei o Kiko e a Lolita, mas não vejo o dia de voltarmos a passear...

20 abril 2010

u, animal de quatro patas - I

assim transformada por obra de um casal de condutores impreparados, que, por me terem transformado a vida me pediram desculpa a tremer, com um vaso de flores e a citação de um salmo cujo número não fixei.
Atira-me para a cama do hospital e dois meses de recuperação e eu não sei se lhes perdoei, não sei se lhes perdoo nem sei o que sinto acerca disso; ninguém faz tamanho acto sem ser por uma desmedida dose de inconsciência e irresponsabilidade. Creio que o que essas pessoas sentem não depende do meu perdão. Creio que o peso nas suas consciências fará isso por mim. Devo-lhes as dores que nunca tinha experimentado; conviver com uma realidade que desconhecia. Fizeram-me mal, muito mal e, no entanto, não lhes tenho raiva. Não sei o que lhe tenho. No entanto, andam lá fora, talvez levando as suas vidas normalmente. Deixá-los.

A vida suspensa por meses, por culpa de dois ou três segundos e dúvidas quanto à minha perfeita recuperação. Um ferro para tirar em nova operação. Um regresso que hospital, que ainda me causa pânico.
Estarão outros doentes a passar o que passei? Quinze noites sem dormir quase todas porque não me deram ouvidos quando me queixei duma alergia que me pôs a pele em ferida. Coçar-me noites a fio, a arder em calor e sem solução à vista; limitada a uma posição na qual nunca antes adormecera, num colchão forrado de materiais sintéticos e protectores, devidamente previsto, testado e inócuo, pensara eu...

Mas o meu sofrimento não era só meu. Ultrapassava o meu quarto; o meu pensamento dirigia-se para todos os seres que sofrem com experimentações, em laboratórios de onde não têm escape. Tudo o que usaram em mim terá sido testado em milhares de outros seres que sofreram mais do que eu, não tendo servido de grande remédio tamanha dor. Sofri ainda mais com este pensamento que me angustiou dias a fio.
Quando, após três infrutíferas tentativas, consegui levantar-me e circular pelos corredores numa cadeira de rodas, fi-lo de olhar no chão; não conseguia encarar as outras camas, os outros quartos, onde adivinhava situação igual à minha, mais dor.
Eu passei mal, mas um belo dia tive alta. Não fugi pelo meu pé, mas posso recuperar.
Outros não têm esta sorte. Acredito que este acidente tenha mudado a minha vida e a minha forma de estar. Terei medo de andar a pé? Esquecerei tudo isto facilmente? Tenho medo...

02 abril 2010

áscoa,
tempo de fraternidade e humanidade. Reunião da família.
Pelo caminho, mata-se um cabrito e deixa-se para trás um outro qualquer não humano.
Ou mesmo um humano, num lar ou num hospital.
Mas que raio de Páscoa é esta? O apelido de uma colega? Exacto, apenas isso.

01 abril 2010

ara quê um título nisto?

Olho os que têm filhos pequenos e dou graças a Deus por não os ter. Por não ter por diante um dia de dedicação exclusiva; por não ter que passar por correrias, berreiros, angústias de birras. Olho os que têm filhos crescidos, digamos adultos ou quase. Percebo que tantos são mimados, pouco esforçados e muitos, pouco amigos dos pais. Constrangem, manipulam os pais e os demais. Dão-lhes dores de cabeça e arrelias. Dão-lhes netos para cuidar quando se preparam para descansar na reforma.
Claro que existe o outro lado. O positivo, o da felicidade de os ver crescer, dizem. O que dá sentido à vida, dizem. Um rol de alegrias sem fim, dizem. Que é tão lindo, dizem.
Passei ao lado da maternidade, dei um pontapé na possibilidade de fazer carreira no papel de mãe e dona de casa para o quais me talharam. Sofri anos a fio com isso. O peso foi tamanho que moldou a minha vida durante anos.
Não me arrependo; fazendo as contas, viveria agora angustiada por saber onde iam e com quem foram, que altura teriam os namorados; negociaria a compra de relógios de marca, de carros e de motas. Alegrar-me-ia na eperança de ser avó, de ter a casa cheia de corridas e berros de novo, dizem. E isto, se entretanto não me tivessem chutado para um canto qualquer.
Não vivo nessa incerteza. Tive sorte. Não tenho que escolher por ninguém nem ter pesadelos por ter nas mãos o futuro de alguém. Poderia ter uma casa cheia? Poder podia, mas não era a mesma coisa.
bismo

Pinhões andava chateado. Começou por ficar triste mas tamanha repetida tristeza converteu-se em raiva. Enervavam-no a juventude e a graciosidade das colegas jovens, muito mais novas que ele. Mais novas que ele!, como se isso algum dia tivesse sido previsto por aquele seu orgulhoso cérebro.
Sofria daquele mal de que sofrem muitos jovens, que crêem que esse estado próprio da sua idade é eterno. Agora, a beirar os cinquenta, Pinhões, queira enganar-se e iludia-se na presunção de que podia praticar os mesmos desportos de havia anos: beber o seu copito ao almoço e depois dele; chegar atrasado a todo e qualquer compromisso e dá-lo por concluído antes de ter terminado; pegar na sachola para cavar 10 m2 de terreno sem dó nem piedade, de um trago. Pior. Pinhões adorava fazer-se de esquecido e usava essa façanha como arma de intervenção junto do mulherio, que se desfazia em amabilidades com peninha dele.
Coitado, está passado.
No entanto, Pinhões ia nutrindo um ódiozinho por aquelas que o bajulavam. Não suportava que os colegas de longos anos transformados em amigos do peito profundo fossem substituídos por meia dúzia crescente de galdérias apressadas e histéricas. Que nervos.
Sentia-se a alguma distância um certo cheiro a álcool. Talvez aquele em que marinava o ódio... Os olhos saltavam-lhe das órbitas e esborrachavam-se nas grossas lentes quando explicava a sua mais importante actividade para esse ano. Saltar de pára-quedas. Podiam levar-se um ou outro aluno, mas era fundamental que fossem todas...